Pampa Alfabetizado: formação continuada de professoras do campo, das águas e das florestas

Autores

  • José Guilherme Franco Gonzaga

Palavras-chave:

Educação, Campo, Escola, Formação, Professores/as, Alfabetização

Resumo

O projeto Escola da Terra Compromisso Criança Alfabetizada propõe a implementação de um curso de formação continuada em alfabetização e letramento para 200 professoras(es) que atuam do 1º ao 3º ano do Ensino Fundamental e em turmas multisseriadas de escolas do campo e das águas, nos municípios de Canguçu, Piratini, Rio Grande, Santana da Boa Vista e São José do Norte. Trata-se de uma iniciativa coordenada pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa), em parceria com secretarias municipais de educação e com Coordenação Geral de Educação do Campo (SECADI/MEC). O projeto insere-se no contexto do Bioma Pampa, território singular de sociobiodiversidade, mas também marcado por históricas desigualdades sociais, concentração fundiária, pressões do agronegócio, expansão da monocultura da soja e da mineração. Essa realidade impacta diretamente as comunidades e suas escolas, que resistem frente ao fechamento de unidades e à invisibilidade política e pedagógica. O objetivo central do projeto é enfrentar os desafios da alfabetização no campo, assegurando o direito à aprendizagem e fortalecendo a escola como espaço de vida, cultura, pertencimento e resistência. Para isso, a proposta parte do princípio de que alfabetizar não se restringe ao domínio técnico da leitura e da escrita, mas deve ser compreendido como prática social, vinculada à leitura crítica do mundo, em diálogo com Paulo Freire. Desse modo, busca-se formar educadores(as) capazes de articular a alfabetização com os saberes comunitários, as práticas culturais e a realidade concreta dos povos do campo e das águas. Entre os objetivos específicos, destacam-se: desenvolver estratégias didático-pedagógicas contextualizadas que valorizem a diversidade cultural e linguística; integrar a alfabetização com a matemática (etnomatemática), a alfabetização científica e a agroecologia; fomentar práticas de leitura e escrita vinculadas às experiências locais; e produzir coletivamente materiais pedagógicos e planos de ação capazes de dialogar com os territórios. A agroecologia, nesse sentido, não é apenas eixo temático, mas fundamento metodológico e pedagógico, pois articula ciência, cultura e sustentabilidade, permitindo que os processos de ensino-aprendizagem estejam diretamente relacionados ao cuidado com a terra, à soberania alimentar e à valorização dos saberes tradicionais. A metodologia está estruturada na pedagogia da alternância, com a organização de dois tempos formativos: o Tempo Universidade, voltado a estudos teóricos, oficinas, diálogos e aprofundamento conceitual; e o Tempo Escola/Comunidade, dedicado à prática pedagógica e à reflexão situada sobre a realidade escolar e comunitária. Esses tempos se desenvolvem em espirais formativas, que abordam temas como identidade e territórios do campo, práticas de alfabetização e metodologias da educação popular, tais como, a cartografia social, quadro de sementes e as "arpilleras" (histórias costuradas em panos). A proposta metodológica valoriza o diálogo horizontal, a escuta das experiências docentes e comunitárias e a articulação entre teoria e prática, estimulando a criação de uma rede de formação crítica, solidária e emancipadora. Os resultados esperados incluem: a qualificação do trabalho docente nas séries iniciais e turmas multisseriadas, de modo a enfrentar as desigualdades de aprendizagem que afetam historicamente as crianças do campo; o fortalecimento da identidade e da permanência das escolas em territórios camponeses, indígenas, quilombolas, assentados e pescadores artesanais; a elaboração de materiais didáticos e metodológicos contextualizados; e a consolidação de uma rede de cooperação entre universidade, escolas e comunidades. Para além dos indicadores educacionais, busca-se contribuir para a valorização da escola como espaço de resistência cultural, de formação cidadã e de luta por direitos. Conclui-se que o projeto reafirma a centralidade da educação do campo como política pública estratégica e necessária, ao promover a formação continuada de professores/as comprometidos com a transformação social e a defesa dos territórios. Ao situar a alfabetização no horizonte das referências teóricas da Educação do Campo, da pedagogia "freiriana" e da agroecologia, o Escola da Terra Compromisso Criança Alfabetizada reforça que educar é também cultivar a terra, cultivar a memória e cultivar a dignidade. Nesse sentido, o Bioma Pampa é compreendido não apenas como espaço geográfico, mas como território de vida, diversidade e resistência, que está em disputa e precisa ser preservado e defendido.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

Pampa Alfabetizado: formação continuada de professoras do campo, das águas e das florestas. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/121161. Acesso em: 17 abr. 2026.