Produção de Fitoterápicos: da Sabedoria Popular Ao Conhecimento Científico em Assentamentos Rurais do Rs
Palavras-chave:
Plantas, Medicinais, Tinturas, Sabonetes, FitoterápicosResumo
O uso de plantas para fins terapêuticos é uma prática milenar, enraizada em diversas civilizações antigas e em povos originários ao redor do mundo. Da mesma forma, a produção de sabonetes remonta à Mesopotâmia, por volta de 2800 a.C., com uso tanto para higiene quanto para tratamentos dermatológicos. Apesar da forte influência das indústrias farmacêuticas e cosméticas, o conhecimento ancestral sobre plantas medicinais foi preservado e adaptado ao longo dos séculos, tornando-se um símbolo de resistência e sustentabilidade em comunidades que valorizam o saber popular. Nesse contexto, o projeto de extensão "Do chá de carqueja da Maria aos capões de mato do Antônio: utilização de plantas medicinais e conservação da biodiversidade em assentamentos rurais", desenvolvido pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa) em assentamentos de reforma agrária em Hulha Negra/RS, tem como principal objetivo promover o uso consciente e seguro de plantas medicinais, articulando o conhecimento popular com o científico, em colaboração com coletivos já existentes na região. O trabalho descreve ações extensionistas voltadas à produção de tinturas de plantas medicinais e sabonetes artesanais fitoterápicos. A metodologia adotada foi participativa e dialógica. Inicialmente, foi realizada uma roda de conversa com os participantes do projeto para identificar as principais espécies utilizadas na comunidade para a produção de tinturas. A discussão foi enriquecida com a participação de representantes do Instituto Padre Jósimo, que inclui o trabalho do Frei Zanatta, dedicado ao estudo e à aplicação de plantas medicinais em comunidades rurais do Rio Grande do Sul há mais de 30 anos. A partir das informações coletadas, foram selecionadas espécies como jambolão (Syzygium cumini), insulina vegetal (Cissus sicyoides), pata-de-vaca (Bauhinia forficata), erva baleeira (Cordia verbenacea), espinheira-santa (Maytenus ilicifolia), carqueja (Baccharis trimera), chapéu-de-couro (Echinodorus grandiflorus), douradinha (Waltheria indica), sete-sangrias (Cuphea carthagenensis) e quebra-pedra (Phyllanthus niruri), tradicionalmente empregadas no tratamento de patologias como diabetes, cálculo renal, sinusite e gastrite. No laboratório, foram produzidas tinturas simples e compostas (extratos hidroalcoólicos por maceração estática), além de serem realizados ensaios para a quantificação de classes de compostos bioativos, como flavonoides e taninos. A socialização desses saberes ocorreu por meio de uma oficina, que contou com a presença de representantes da Pastoral da Saúde da Diocese de Bagé. Durante a atividade, foram esclarecidos os procedimentos para a elaboração de tinturas caseiras, sempre reforçando a importância das boas práticas de manipulação para garantir a qualidade e a segurança dos produtos. Os resultados das análises laboratoriais foram compartilhados com a comunidade, indicando as espécies com maiores teores de fitocompostos e as desvantagens de formulações compostas devido à possível interação entre as plantas. Simultaneamente, as experiências de uso da população foram valorizadas, enquanto foram apresentados estudos científicos recentes sobre as espécies, com um forte foco nos riscos de uso e nas contraindicações para a saúde, especialmente para grupos de risco. Além das tinturas, o projeto abordou a produção de sabonetes fitoterápicos. Foram desenvolvidas duas formulações em oficina: uma a partir de glicerina bidestilada, extratos glicólicos, chás, tinturas e azeites, utilizando plantas com propriedades dermatológicas como camomila (Matricaria recutita), alecrim (Rosmarinus officinalis), aveia (Avena sativa), hibisco (Hibiscus sabdariffa) e folhas de oliveira (Olea europaea), conhecidas por suas ações calmante, hidratante e clareadora da pele. A segunda formulação, com foco em custo-benefício e acessibilidade, foi elaborada a partir da diluição de um sabonete de glicerina comercial com adição de açúcar, água, essência e os mesmos extratos vegetais, promovendo uma alternativa de baixo custo para a comunidade. O projeto reforça a importância de atentar para o uso seguro na produção e a correta conservação dos ativos naturais. Ao articular o conhecimento tradicional das comunidades com os fundamentos técnicos e científicos, o projeto de extensão não apenas fortalece a saúde comunitária e a autonomia das famílias rurais, mas também contribui para a preservação da biodiversidade local. As atividades proporcionaram um espaço de troca horizontal, onde a sabedoria popular é valorizada e aprimorada com a precisão da ciência. O projeto tem se mostrado uma ferramenta eficaz para aproximar a universidade de uma população historicamente desfavorecida, demonstrando o potencial transformador da extensão universitária.Downloads
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Publicado
2025-10-26
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Produção de Fitoterápicos: da Sabedoria Popular Ao Conhecimento Científico em Assentamentos Rurais do Rs. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/121082. Acesso em: 17 abr. 2026.