Você Tem Fome de Quê? As Cozinhas Solidárias de Santana do Livramento/RS
Palavras-chave:
Doações, Solidariedade, Ação, SocialResumo
As Cozinhas Solidárias emergem como resposta às crises sociais e econômicas, oferecendo soluções efetivas para o enfrentamento da insegurança alimentar. Ao promoverem a produção e distribuição de alimentos em espaços coletivos fundamentados na solidariedade, sustentabilidade e autonomia, essas cozinhas fortalecem redes de apoio social e o empoderamento dos envolvidos, sobretudo das mulheres. Alinhadas ao conceito de democracia alimentar, tais iniciativas respondem à necessidade de garantir acesso a uma alimentação adequada, acessível, segura, culturalmente apropriada e justa, tanto do ponto de vista nutricional quanto ambiental. No quadro da pandemia da Covid-19, exacerbou-se a situação da fome no Brasil, com cerca de 19 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar em 2020, chegando a 33,1 milhões em 2022. Em resposta a esse agravamento, se intensificaram também iniciativas da sociedade civil voltadas à população vulnerável, entre elas as Cozinhas Solidárias. Essas experiências auferiram reconhecimento formal com a instituição do Programa Cozinha Solidária por meio de decreto, que as define como tecnologia social de base popular, estruturada por coletivos, movimentos sociais e organizações da sociedade civil, com o intuito de produzir e oferecer refeições saudáveis a pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social. A expansão dessas cozinhas tem sido incitada pela elevação da pobreza e desigualdade social, sendo também elementares em momentos de emergência, como evidenciado na catástrofe ambiental de 2024 no Rio Grande do Sul, que atingiu 471 dos 497 municípios. Nessas circunstâncias, as Cozinhas Solidárias atuaram como âncoras emergenciais, fornecendo suporte diário aos desabrigados. No município de Santana do Livramento/RS, situado na Metade Sul do estado, essas iniciativas enfrentam infortúnios de gestão mesmo diante de sua relevância social. O município apresenta características que complicam a geração de empregos e agravam a dispersão urbana, sendo marcada por altos índices de desemprego, sobretudo após o fechamento de frigoríficos. Em 2019, o PIB per capita do município foi de R$ 33.978,58, com uma população estimada de 84.421 pessoas. Apesar da aparente renda média elevada, os dados sociais revelam desigualdade: em dezembro de 2024, havia 20.164 famílias no Cadastro Único, das quais 8.969 recebiam o Bolsa Família, beneficiando 22.780 pessoas; 10.547 dessas famílias tinham renda de até meio salário mínimo. À face do exposto, as Cozinhas Solidárias se tornam espaços de resistência e transformação, assegurando o direito à alimentação e promovendo a dignidade. O projeto de extensão teve como objetivos: divulgar as ações das Cozinhas Solidárias de Santana do Livramento/RS; realizar um sarau cultural como lançamento da campanha de arrecadação de alimentos; arrecadar e distribuir alimentos às cozinhas e pontos populares; aproximar a comunidade acadêmica da realidade local e fortalecer as ações de ensino, pesquisa e extensão do grupo CEDER. As atividades envolveram reuniões de planejamento, montagem de caixas e materiais para armazenamento, diálogo com mídias locais, organização e realização de um sarau cultural com artistas da música, poesia, capoeira e feira da economia solidária e agricultura familiar. Como resultado, foram arrecadadas e doadas mais de uma tonelada de alimentos (sendo 790 kg de itens não perecíveis e 260 kg de alimentos frescos, como verduras, legumes e abóboras). O projeto também promoveu a integração entre universidade e comunidade, possibilitando que discentes, docentes e pesquisadores se aproximassem da realidade socioeconômica do município. A sociedade santanense passou a conhecer mais profundamente o papel das Cozinhas Solidárias, as quais oferecem não apenas alimentos, mas também acolhimento, escuta e solidariedade. A participação de artistas, mídias e comerciantes locais garantiu visibilidade ao projeto e o impacto direto sobre os discentes foi perceptível, embora difícil de mensurar; o sarau contou com mais de 50 discentes e mais de 30 voluntários envolvidos, além de inúmeros relatos positivos recebidos. Destaca-se, por fim, que a universidade pública tem o papel de se inserir nas problemáticas locais, especialmente em regiões de grande vulnerabilidade, efetivando sua missão de impulsionar o desenvolvimento com justiça social. As principais dificuldades enfrentadas incluíram a limitação de recursos financeiros, com parte dos materiais sendo adquiridos com recursos próprios da coordenação do projeto, e a ausência de veículo para transporte dos alimentos arrecadados. Ainda assim, o envolvimento articulado entre a comunidade e a universidade evidenciou que, mesmo diante de adversidades estruturais, é possível viabilizar iniciativas transformadoras, capazes de produzir impactos concretos e significativos na realidade social.Downloads
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Publicado
2025-10-26
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Você Tem Fome de Quê? As Cozinhas Solidárias de Santana do Livramento/RS. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/121027. Acesso em: 19 abr. 2026.