Oficina Territórios Negros em Jaguarão: História Pública e pedagogia antirracista

Autores

  • Natalia Kreiss da Silva Costa
  • Caiuá Cardoso Alalam

Palavras-chave:

Territórios, Negros, Resistência, negra, História, Pública

Resumo

Este trabalho apresenta reflexões sobre a experiência extensionista do Grupo de Estudos sobre Escravidão e Pós-Abolição (GEESPA), vinculado ao Laboratório de História Social e Política (LAHISP) do curso de História da Universidade Federal do Pampa, Campus Jaguarão, a partir da Oficina Territórios Negros em Jaguarão. A proposta se insere no campo da História Pública ao articular preservação da memória, valorização do patrimônio e pedagogia antirracista, problematizando o paradigma da ausência ainda recorrente nos estudos locais sobre a presença e protagonismo negro no Pós-Abolição, uma perspectiva que insiste em invisibilizar a agência histórica das comunidades negras. O GEESPA busca enfrentar esse silêncio historiográfico por meio de iniciativas que evidenciam as resistências da população negra em Jaguarão, destacando especialmente a trajetória do Clube 24 de Agosto, fundado em 1918, no qual a salvaguarda de acervo documental e simbólico constitui um eixo central e indispensável do trabalho. As oficinas são realizadas em diálogo direto e constante com os estudantes da educação básica e têm como público principal turmas do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio, mas também acabam repercutindo entre professores, famílias e a comunidade escolar mais ampla. A primeira etapa, em sala de aula, mobiliza a trajetória da imprensa negra na cidade, a circulação de imagens de famílias negras e o papel de lideranças históricas e contemporâneas, além de provocar reflexões por meio de fotografias antigas de Jaguarão, que mostram mudanças urbanas e revelam a presença negra em espaços que eram segregados em um passado recente. Essa etapa inicial cumpre um papel formativo essencial, pois introduz os estudantes ao reconhecimento das formas de resistência e à valorização de referências culturais que muitas vezes permanecem apagadas pela história oficial. A segunda etapa corresponde a um roteiro pelos principais Territórios Negros de Jaguarão, evidenciando estes espaços de experiências protagonistas das famílias negras na cidade, que no fim, tem como ponto de destaque o Clube 24 de Agosto, onde o Griô Sr. Neir Madruga Crespo conduz a atividade, narrando episódios marcantes de associativismo e de memória coletiva. A presença do Griô não apenas enriquece a transmissão de saberes, mas conecta os estudantes com uma experiência viva de oralidade, ancestralidade e resistência. Nesse espaço, os participantes acessam o acervo preservado pelo GEESPA e materiais pedagógicos elaborados pelo grupo, o que transforma o aprendizado em vivência concreta e sensível, aproximando passado e presente. Todo esse processo busca estimular a valorização da documentação histórica e o reconhecimento do Clube como patrimônio cultural e espaço simbólico de resistência negra na cidade. Para se ter uma ideia, neste primeiro semestre de 2025, foram atendidas 7 instituições escolares e cerca de 150 estudantes, número expressivo que demonstra o alcance e impacto social da iniciativa, além de evidenciar a necessidade de continuidade e ampliação das ações. Os resultados apontam que a Oficina contribui para ampliar a compreensão do Pós-Abolição como campo de estudos que não se restringe a uma cronologia posterior a 1888, mas que estimula continuidades, o reconhecimento dos projetos de liberdade e múltiplas formas de agência negra. Com isso, essa forma de atuação fortalece práticas educativas contra o racismo, superando perspectivas tradicionais que relegam a população negra à invisibilidade. Ao inserir a Oficina no contexto da História Pública, evidencia-se como o ensino de História pode assumir um caráter socialmente transformador, aproximando universidade, escola e comunidade. Assim, a Oficina Territórios Negros em Jaguarão exemplifica de maneira concreta como a História Pública pode se constituir em prática pedagógica antirracista, preservando memórias locais, tensionando ausências e reafirmando o protagonismo negro na construção da história da cidade, demonstrando que a luta contra o racismo é também uma luta pela preservação da memória e pela construção de novos horizontes de cidadania e justiça social.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

Oficina Territórios Negros em Jaguarão: História Pública e pedagogia antirracista. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/121010. Acesso em: 17 abr. 2026.