Acolhimento de Estudantes Nordestinos em Uma Universidade Federal do Sul do Brasil: Vivências de Inclusão e Xenofobia

Autores

  • Edivania Silva
  • Marina Victoria De Oliveira Carvalho
  • Bianca Naely Barboza da Silva
  • Juliana Fagundes de Lima
  • Maria Luisa Hipólito Gundim dos Santos
  • Valeria Aydos

Palavras-chave:

Xenofobia, inclusão, acadêmica, estudantes, nordestinos

Resumo

As vivências de estudantes nordestinos que migraram para cursar o ensino superior em uma Universidade Federal no Sul do Brasil evidencia como as desigualdades históricas e regionais do país impactam o acesso, o acolhimento e a integração acadêmica. Embora a universidade deva ser um espaço de respeito à diversidade (Freire, 1996), ainda persistem estereótipos e práticas discriminatórias que afetam os estudantes nordestinos. A literatura (Santos, 2000; Caldwell, 1974; Holston, 2008) aponta que tais disparidades remontam ao período colonial e se intensificaram com a industrialização e a construção simbólica do Nordeste como região atrasada, em contraste com a imagem de progresso atribuída ao Sul. Esse cenário revela não apenas barreiras de adaptação, mas também a reprodução de preconceitos regionais e raciais dentro do ambiente acadêmico. Nesse contexto, este estudo analisa as experiências de estudantes nordestinos no ensino superior no Sul do Brasil, com foco nos desafios de adaptação, nas formas de acolhimento e nas manifestações de preconceito regional e racial. Além disso, pretende-se refletir sobre como essas vivências podem subsidiar práticas institucionais voltadas à construção de uma universidade mais inclusiva e equitativa. Para isso, a título de realizar o trabalho final de uma disciplina do segundo semestre de um curso da área da saúde, foi realizada uma pesquisa exploratória, de abordagem qualitativa, por meio de entrevistas semiestruturadas com 18 estudantes nordestinos, sendo 15 online e 3 presenciais, com idades entre 19 e 35 anos, oriundos de Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte. As entrevistas, buscaram explorar experiências de acolhimento, discriminação e adaptação ao contexto universitário, com perguntas sobre preconceito, sotaque e tratamento diferenciado. Os relatos foram analisados qualitativamente, com abordagem temática com foco na interseção entre preconceito regional e racial. A maioria dos participantes se declarou parda e pertencente à classe baixa, alguns se identificaram como negros e poucos como brancos. Os relatos revelaram experiências ambivalentes. Parte dos estudantes descreveu ter sido bem acolhido por colegas e professores, com inclusão em atividades e reconhecimento de sua trajetória. Contudo, comentários aparentemente elogiosos frequentemente reforçaram estereótipos sobre o Nordeste, como a ideia de distância cultural e cultura diferente. Paralelamente, surgiram experiências de xenofobia explícita, como insultos (cabeça chata, baiano) e episódios de exclusão. Casos mais graves incluíram ofensas virtuais, como mensagens sugerindo que os estudantes voltassem para sua terra. Outrossim, a identidade dos alunos foi frequentemente reduzida à sua origem regional, sendo chamados apenas por Bahia ou Nordestino, o que apaga suas individualidades. Entre os entrevistados negros o preconceito foi intensificado pela sobreposição de estigmas raciais, regionais e de classe, evidenciando a pertinência da interseccionalidade (Crenshaw, 1991). Em contrapartida, redes de apoio entre os próprios nordestinos emergiram como estratégias de resistência e fortalecimento identitário. Dessa forma, portanto, esse estudo demonstra que as vivências de estudantes nordestinos em uma universidade do Sul do Brasil são marcadas pela dualidade entre acolhimento e discriminação. Embora alguns encontrem integração, muitos enfrentam barreiras estruturais sustentadas por estereótipos regionais e raciais. A análise confirma o objetivo inicial de compreender como desigualdades históricas e culturais afetam a adaptação acadêmica e social desses estudantes. Conclui-se que a ausência de políticas institucionais eficazes para valorização da diversidade, combate à xenofobia e promoção de práticas inclusivas contribui para perpetuar desigualdades. Assim, reforça-se a necessidade de ações que reconheçam a pluralidade cultural, enfrentem preconceitos e promovam uma universidade mais justa e acolhedora, garantindo que a trajetória acadêmica de estudantes nordestinos seja pautada pelo respeito e pela equidade.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

Acolhimento de Estudantes Nordestinos em Uma Universidade Federal do Sul do Brasil: Vivências de Inclusão e Xenofobia. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/121004. Acesso em: 16 abr. 2026.