Quando o cuidado atravessa a porta: experiência na construção de vínculos através de visitas domiciliares
Palavras-chave:
Visita, domiciliar, Humanização, assistência, Vínculo, profissional-usuárioResumo
As visitas domiciliares (VD) constituem-se como uma prática essencial no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), pois ultrapassam a dimensão técnica do cuidado em saúde e possibilitam ao profissional adentrar não apenas o espaço físico das casas, mas também a intimidade, os modos de vida e as histórias das pessoas e famílias atendidas. Esse contato próximo permite compreender o processo saúde-doença em sua integralidade, valorizando determinantes sociais, culturais e subjetivos que, muitas vezes, não são captados nos atendimentos realizados dentro das unidades de saúde. O objetivo deste trabalho é relatar a experiência de acadêmicos integrantes do Programa de Educação Tutorial Práticas Integradas em Saúde Coletiva (PET PISC) da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) na realização de visitas domiciliares em parceria com equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), destacando sua contribuição para a formação interprofissional, para a construção de vínculos com a comunidade e para a promoção de um cuidado humanizado e centrado nas pessoas. As ações envolveram acadêmicos dos cursos de Enfermagem, Fisioterapia e Farmácia, orientados por um professor-tutor, que planejaram e executaram as VD de acordo com demandas identificadas no território de abrangência das equipes de saúde da família. A metodologia adotada foi a observação participante, complementada pela discussão em grupo como estratégia para análise coletiva das experiências e reflexão crítica sobre os desafios e as potencialidades encontradas. Durante as visitas, cada porta aberta revelou um cenário único e particular: idosos que aguardavam ansiosamente por uma conversa e compartilhavam memórias, famílias que relatavam suas dificuldades em acessar os serviços de saúde ou em lidar com doenças crônicas, e crianças que, entre sorrisos, brincadeiras e curiosidade, aproximavam-se dos acadêmicos e tornavam o encontro mais leve e acolhedor. Nesse contexto, a escuta qualificada e o acolhimento emergiram como instrumentos fundamentais para estabelecer relações de confiança, nas quais puderam surgir relatos de solidão, de barreiras de acesso e também de estratégias próprias de cuidado desenvolvidas pelas famílias. Essas interações possibilitaram intervenções personalizadas, desde orientações educativas sobre autocuidado até encaminhamentos para serviços especializados, além do compartilhamento de informações sobre direitos e recursos disponíveis na rede de atenção à saúde. Mais do que isso, permitiram a construção de vínculos significativos entre estudantes, profissionais e usuários, o que fortaleceu a continuidade do cuidado e ampliou o sentimento de pertencimento da comunidade em relação à equipe de saúde. A experiência também contribuiu para a formação dos acadêmicos, na medida em que ampliou sua compreensão sobre a complexidade do processo saúde-doença e evidenciou que o cuidado vai além dos procedimentos técnicos, sendo constituído também por gestos simples, palavras de apoio e uma presença atenta. Os estudantes destacaram que estar no domicílio lhes proporcionou uma visão mais ampla da realidade social das famílias, favorecendo o desenvolvimento da empatia, da sensibilidade e da capacidade de intervir de maneira integral e resolutiva. Do ponto de vista pedagógico, a prática potencializou o aprendizado interprofissional ao reunir estudantes de diferentes cursos em torno de um mesmo objetivo. Essa integração estimulou a troca de saberes e a valorização das especificidades de cada área, reforçando a importância do trabalho em equipe multiprofissional como requisito para o enfrentamento dos problemas de saúde da população. Além disso, aproximou o ensino das demandas concretas do território, fortalecendo o compromisso social da universidade com a comunidade. Ao refletirem sobre as visitas domiciliares, os acadêmicos apontaram que a experiência foi transformadora tanto para sua formação quanto para a prática do cuidado em saúde. As VD revelaram-se não apenas como uma estratégia assistencial, mas também como uma ferramenta pedagógica potente, capaz de unir ensino, serviço e comunidade em um processo de construção coletiva. Através delas, foi possível observar que a APS, quando pautada na humanização, no vínculo e na integralidade, produz impactos significativos na vida dos usuários, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e para a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS). Conclui-se que a experiência relatada qualificou a assistência prestada à comunidade e, simultaneamente, favoreceu a formação crítica e humanizada dos acadêmicos, reafirmando o valor das visitas domiciliares como ferramenta de aproximação entre profissionais e usuários. O PET PISC mostrou-se, nesse sentido, um espaço formativo potente para articular teoria e prática, ensino e serviço, universidade e comunidade. Mais do que tratar doenças, a vivência oportunizou reconhecer, acolher e valorizar pessoas em sua singularidade.Downloads
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Publicado
2025-10-26
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Quando o cuidado atravessa a porta: experiência na construção de vínculos através de visitas domiciliares. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120960. Acesso em: 16 abr. 2026.