A Palhaçaria Como Estratégia de Cuidado: o Diálogo Entre a Prática e a Literatura

Autores

  • Natália Panighel
  • Luísa Mendes Melchuna
  • Liamara Denise Ubessi

Palavras-chave:

Arte, Saúde, Cuidado, Coletiva

Resumo

A promoção da saúde, entendida como cuidado ampliado, demanda práticas que acolham os sujeitos em sua integralidade física, emocional, social e cultural. Esse entendimento rompe com a lógica reducionista do modelo biomédico e coloca em evidência a necessidade de ações que dialoguem com os contextos de vida, as subjetividades e as redes de apoio das pessoas. Nesse cenário, a vivência da palhaçaria em espaços de saúde revela-se profundamente transformadora, pois utiliza o riso, o improviso, a escuta afetiva e a sensibilidade estética como ferramentas de vínculo, humanização do atendimento e ressignificação do sofrimento. No projeto PalhaSUS, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), essa experiência se concretiza por meio de intervenções em hospitais, escolas e instituições comunitárias. Nessas práticas, o palhaço, com sua presença brincante e sensível, atua como ponte entre a arte e o cuidado, promovendo encontros que atravessam o cotidiano com leveza, criatividade e sentido. A ludicidade do palhaço quebra protocolos rígidos, diminui tensões e possibilita um espaço onde a espontaneidade pode florescer, permitindo que pacientes e profissionais se conectem de forma mais humana e horizontal. Dessa forma, o ambiente hospitalar, muitas vezes marcado por medo, dor e angústia, transforma-se em lugar de afetividade, acolhimento e até mesmo esperança. Este resumo apresenta a experiência de acadêmicas do curso de Medicina da Unipampa na prática da palhaçaria, fortalecida pela leitura de produções científicas sobre o tema. Trata-se de um relato de experiência articulado com três produções acadêmicas dois artigos e uma dissertação: Palhaços em hospitais: a comunicação do cuidado em saúde pela lógica do riso (Silva e Vasconcelos, 2015), a dissertação de mestrado de Augusto Conti Filho e a revisão A importância da palhaçoterapia na saúde da criança no contexto hospitalar (Santos et al., 2023). A escolha dessas referências foi realizada de forma intencional para refletir sobre o vivido com a palhaçaria nos serviços de saúde e comunidade, estabelecendo um diálogo entre teoria e prática. A análise conjunta permitiu identificar diversas convergências entre a literatura e a experiência vivida. Em primeiro lugar, percebeu-se que o palhaço transforma o ambiente, favorecendo o bem-estar emocional de crianças, adultos, idosos, acompanhantes e profissionais, além de reforçar a escuta como gesto de cuidado. Durante as visitas hospitalares realizadas pelas autoras em atividade de palhaçaria, observou-se melhora significativa no estado emocional dos usuários e também nos vínculos entre equipe de saúde e familiares. O riso e o jogo criam uma atmosfera mais leve, permitindo que pacientes enfrentem procedimentos médicos com maior tranquilidade e que familiares encontrem respiro em meio ao desgaste emocional, aspectos que reafirmam a potência da arte como mediadora de cuidado. Fora do espaço hospitalar, as intervenções comunitárias evidenciaram uma dimensão político-pedagógica da palhaçaria. Nessas experiências, observou-se o fortalecimento de laços sociais, o exercício da crítica e o estímulo ao protagonismo coletivo aspectos também destacados na literatura. O palhaço não atua apenas como alívio individual, mas como mobilizador de sentidos coletivos, promovendo encontros que resgatam a potência comunitária e possibilitam transformações sociais. O exercício da palhaçaria mostrou-se ainda como prática de formação crítica para as acadêmicas. Ao vivenciarem essa experiência, perceberam em si mesmas a ampliação da capacidade de escuta, o desenvolvimento da empatia e o refinamento do olhar sensível para a diversidade das experiências humanas. A figura do palhaço convida o futuro profissional de saúde a reconhecer sua própria vulnerabilidade e humanidade, rompendo com a visão tecnicista e promovendo um cuidado que integra razão, técnica e sensibilidade. Ao valorizar os saberes da experiência aliados ao saber popular e ao diálogo com os textos científicos, ampliam-se as formas de comunicação e de cuidado, criando espaços de acolhimento que tensionam desigualdades sociais e culturais presentes no acesso à saúde. A palhaçaria, nesse sentido, não é apenas intervenção lúdica, mas também prática de resistência, inclusão e transformação social. Assim, pode-se afirmar que a palhaçaria está alinhada aos princípios da promoção da saúde e contribui para um modelo de cuidado inclusivo, integral e humanizado. Em sintonia com os estudos consultados, considera-se que o palhaço também é cuidador e, portanto, sua presença reafirma que o Sistema Único de Saúde (SUS) pode ser, além de espaço de tratamento, também lugar de alegria, criatividade, esperança e produção de novos sentidos para a vida. Ao legitimar o riso como linguagem de cuidado, amplia-se a concepção de saúde, reforçando que cuidar é também possibilitar encontros que transformam o sofrimento em potência de vida.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

A Palhaçaria Como Estratégia de Cuidado: o Diálogo Entre a Prática e a Literatura. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 3, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120952. Acesso em: 17 abr. 2026.