RESILIÊNCIA E VULNERABILIDADE NA CIDADE MEDIEVAL: UMA REPRESENTAÇÃO DIDÁTICA DO ESPAÇO FORTIFICADO
Palavras-chave:
Muralha, medieval, Nucleação, urbana, Gestão, resíduosResumo
A transição da Alta para a Baixa Idade Média foi marcada pelo renascimento do comércio e pela gradual reurbanização da Europa, dando origem a um novo tipo de assentamento: a cidade fortificada ou burgo. A construção de uma maquete representativa deste fenômeno, no contexto da disciplina Formação Urbana no Mundo Contemporâneo, permite aos alunos do curso Técnico em Meio Ambiente do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), campus Bagé, investigar as complexas consequências socioambientais da nucleação populacional. Este modelo didático explora a cidade medieval não apenas como um centro de trocas comerciais e poder político emergente, mas como um ecossistema urbano confinado, onde a busca por segurança militar gerou severos desafios de saneamento, gestão de resíduos e saúde pública. A análise da morfologia do burgo, definida primordialmente por suas muralhas, oferece um estudo de caso histórico sobre os trade-offs entre resiliência a ameaças externas e a vulnerabilidade a crises internas, como epidemias, um tema de profunda relevância para o planejamento urbano e a gestão de riscos ambientais na atualidade. A elaboração do modelo foi orientada pela necessidade de representar a densidade e a fortificação como características definidoras. A pesquisa prévia focou em plantas de cidades medievais, destacando o papel das muralhas, do castelo, da igreja e do mercado como elementos estruturantes. O papelão corrugado foi o material predominante, escolhido por sua rigidez e textura, que, quando exposta, emula a aparência de alvenaria de pedra. Técnicas de laminação e enrolamento foram aplicadas para construir as torres cilíndricas do castelo e das muralhas, enquanto cortes precisos criaram as ameias e seteiras. O castelo foi concebido como uma estrutura complexa e multifacetada, integrado a uma imponente muralha que circunda todo o assentamento. Um rio, feito com tinta guache azul, lava roupas em pó e cola branca líquida, foi incorporado ao sistema defensivo como um fosso natural, com uma ponte levadiça controlando o acesso principal. No interior dos muros, foram dispostas edificações menores para sugerir a alta densidade de ocupação, contrastando com a paisagem aberta do modelo feudal agrário. O produto finalizado é uma representação coesa de um sistema urbano definido por sua fronteira física. A maquete demonstra com clareza um assentamento nucleado, onde a muralha cria uma separação drástica entre o espaço urbano interno e o campo externo. O castelo, embora ainda central, compartilha o protagonismo com a muralha, formando um complexo defensivo integrado. A presença de um fosso hídrico evidencia o uso estratégico de elementos naturais para fins militares. A disposição compacta das construções internas transmite a sensação de confinamento e a ausência de espaços abertos, característica das cidades medievais. O sucesso do modelo reside em sua capacidade de comunicar visualmente a primazia da função defensiva na determinação da forma urbana. Como limitação, o modelo não detalha a trama viária interna, tipicamente orgânica e labiríntica, nem a ausência de um sistema de saneamento formal, aspectos que foram abordados conceitualmente. A análise interpretativa da maquete revela que a muralha medieval foi um determinante ambiental fundamental, com consequências paradoxais. Ao garantir a segurança necessária para o florescimento do comércio e o crescimento populacional, ela simultaneamente criou um ambiente de alto estresse ecológico e sanitário. O confinamento espacial, aliado à falta de sistemas de gestão de resíduos e de abastecimento de água potável, transformava as ruas em esgotos a céu aberto e os rios (usados como fossos) em focos de contaminação, estabelecendo condições ideais para a propagação de doenças. A muralha, portanto, ao proteger a cidade de uma ameaça, a tornava extremamente frágil a outra. Esta dialética entre segurança e salubridade oferece uma lição crucial sobre resiliência urbana. A cidade medieval murada pode ser vista como um sistema resiliente a ataques militares, mas altamente vulnerável a choques epidemiológicos. Para o Técnico em Meio Ambiente, este exemplo histórico ilustra a necessidade de uma avaliação de riscos holística e multivetorial no planejamento de sistemas complexos. Ele suscita questionamentos sobre as cidades contemporâneas: ao priorizarmos a eficiência econômica ou a segurança digital, estamos inadvertidamente criando novas vulnerabilidades a crises climáticas, pandêmicas ou sociais? O modelo do burgo medieval serve, assim, como uma poderosa alegoria sobre a importância de integrar saúde ambiental, segurança e funcionalidade econômica para alcançar uma resiliência urbana verdadeira e duradoura.Downloads
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Publicado
2025-10-24
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
RESILIÊNCIA E VULNERABILIDADE NA CIDADE MEDIEVAL: UMA REPRESENTAÇÃO DIDÁTICA DO ESPAÇO FORTIFICADO. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120851. Acesso em: 14 maio. 2026.