Observação à Docência na Educação Básica

Autores

  • Luizi Dantas
  • Simôni Costa Monteiro Gervasio

Palavras-chave:

Metodologias, Ensino, Engajamento, Método, Freiriano

Resumo

A implementação de metodologias de aprendizagem na educação básica é um dos grandes desafios da atualidade. Embora as propostas pedagógicas discutidas na formação docente sejam diversas e inovadoras, a realidade escolar impõe adaptações, reinvenções e, muitas vezes, a permanência de práticas tradicionais. A sala de aula é um espaço dinâmico e imprevisível, no qual as circunstâncias concretas exigem do professor decisões rápidas e sensíveis. Essa perspectiva dialoga com Paulo Freire (1996), que defende o equilíbrio entre rigor técnico, sensibilidade humana e compromisso com a emancipação dos educandos. Ensinar, portanto, é um exercício de equilíbrio: cumprir o currículo, mas também criar condições para que os alunos relacionem o aprendizado à sua realidade, participem ativamente e sejam reconhecidos como sujeitos de saber. Em Pedagogia da Autonomia, Freire ressalta que ensinar exige respeito à autonomia do educando (FREIRE, 1996, p. 67) e que a amorosidade vai além do afeto, constituindo-se como compromisso ético e político com os estudantes. Foi realizada uma observação em uma escola estadual situada na cidade de Candiota, em aulas de matemática do 8º e 9º ano que buscou analisar a prática docente a partir desse olhar. Apesar das limitações estruturais e da carência de professores, a instituição mantém ambiente acolhedor, utilizando recursos como livros fornecidos pelo governo, materiais impressos e o livro Aprende Mais, alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) . No 8º ano, conteúdos como porcentagem e conjuntos numéricos foram trabalhados inicialmente de forma expositiva, mas com espaço para que os alunos tentassem resolver antes da correção, em sintonia com a construção coletiva do conhecimento. No 9º ano, ao abordar radiciação, a professora demonstrou atenção especial a um aluno com necessidades específicas, evidenciando a amorosidade freiriana ao reconhecer suas capacidades sem desconsiderar a turma. No segundo dia, o 8º ano estudou operações com monômios. Apesar da clareza da explicação, a pouca variação metodológica levou à dispersão dos alunos, o que reforça a crítica de Freire ao risco da mecanização. A professora reconhece esse desafio e relata que, diante do desinteresse, procura diversificar as estratégias, utilizando jogos, atividades diferenciadas e materiais alternativos para recuperar estudantes desmotivados. Essa postura mostra a busca por tornar o aprendizado mais leve e significativo, indo além da simples aplicação de provas e trabalhos. No 9º ano, o estudo dos produtos notáveis foi trabalhado a partir de duas abordagens complementares: o chuveirinho, que consiste na representação distributiva passo a passo das multiplicações, favorecendo a visualização do processo; e a aplicação direta das fórmulas algébricas, que possibilita maior agilidade na resolução, após a compreensão da estrutura dos produtos notáveis., respeitando diferentes modos de aprender. Quando um aluno resistiu às atividades, a professora agiu com firmeza sem autoritarismo, preservando o diálogo, o que traduz a amorosidade como respeito à dignidade do educando. No terceiro dia, foi possível observar o processo avaliativo. Embora a prova ainda possua peso central, a professora valoriza o raciocínio e explica cada passo, aproximando-se de uma avaliação formativa. Ela também reconheceu a dificuldade de manter o engajamento dos alunos, essencial para que a aprendizagem ocorra. Nesse sentido, cabe destacar que educar é enfrentar desafios constantes e compreender que o desinteresse dos alunos compromete o processo, pois sem engajamento dificilmente se alcança uma aprendizagem verdadeira. Resultados imediatos, ainda que positivos, não garantem compreensão nem significado, revelando a importância de práticas que despertem curiosidade e envolvimento. Essa visão dialoga com Freire (1970) ao afirmar que a aprendizagem só ganha sentido quando há engajamento ativo dos estudantes. Conclui-se que, embora a prática observada seja predominantemente tradicional, ela incorpora princípios freirianos de forma intuitiva. A amorosidade se revela tanto nos gestos de cuidado quanto no esforço de reconhecer cada aluno como sujeito de saber. Ao buscar alternativas criativas e valorizar a persistência dos estudantes, a professora demonstra que é possível repensar práticas tradicionais, transformando a avaliação e a recuperação em processos mais motivadores. Dessa forma, evidencia-se que a presença dos princípios freirianos: diálogo, respeito à autonomia e compromisso com a aprendizagem, pode se concretizar no cotidiano escolar mesmo sem serem explicitamente nomeados, reforçando a necessidade de práticas que unam sensibilidade e rigor para despertar curiosidade, engajamento e aprendizagens significativas.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

Observação à Docência na Educação Básica. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120836. Acesso em: 14 maio. 2026.