A Promoção da Etnoastronomia Através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Docência
Palavras-chave:
Interdisciplinaridade, Etnoastronomia, PIBID, Educação, InterculturalResumo
Em consonância com a Lei 11.645/08, que estabelece a obrigatoriedade do estudo da História e cultura afro-brasileira e indígena no currículo escolar, este trabalho investiga o potencial da Etnoastronomia como um instrumento pedagógico fundamental para a construção de um ensino de ciências mais plural, crítico e representativo. A pesquisa emerge de práticas extensionistas realizadas durante o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) do curso de Ciências da Natureza - Licenciatura, da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), e busca desafiar e superar as barreiras de uma epistemologia tradicionalmente eurocêntrica. A proposta contrapõe-se à visão reduzida e hegemônica da ciência, ao reconhecer os saberes dos povos originários brasileiros não como mero folclore, mas como um sistema científico empírico, complexo e plenamente funcional. Este sistema foi desenvolvido ao longo de milênios, a partir da observação sistemática do céu, orientando a agricultura de coivara, os ciclos de caça e pesca, os rituais sagrados e a organização social das comunidades. A experiência pedagógica foi aplicada em turmas do 4º e 5º anos do Ensino Fundamental de uma escola pública municipal da cidade de Uruguaiana (RS), espaço no qual a diversidade cultural deve ser ativamente fomentada. A fundamentação teórica da intervenção baseou-se principalmente em Germano Afonso e Kelen Silva (2011), cuja obra detalha e valida a complexidade da astronomia Tupi-Guarani, servindo como alicerce para a descolonização do currículo de ciências. O objetivo foi apresentar essa astronomia como uma ciência viva, prática e emancipatória, centrada na observação direta do ambiente e em suas aplicações no cotidiano. A primeira etapa da oficina buscou desmistificar a produção do conhecimento científico, apresentando tecnologias ancestrais como o gnômon. Em abordagem expositiva e dialogada, explicou-se como a sombra de uma haste ao ser projetada pelo Sol, permite determinar os pontos cardeais, o meio dia solar e demarcar solstícios e equinócios. Os estudantes participaram ativamente com perguntas e reflexões, relacionando os novos conceitos com saberes prévios sobre o Sol e as estações do ano, enriquecendo a discussão. Na sequência, a oficina aprofundou-se nos ciclos lunares e nas constelações indígenas, apresentadas não apenas como agrupamentos de estrelas, mas como um sofisticado calendário celeste. Deu-se destaque às constelações da tradição Tupi-Guarani, como a Ema (que coincide com partes das constelações ocidentais de Escorpião e Sagitário) e o Homem Velho (em Touro e Órion). Explicou-se, de forma prática, que o desaparecimento da Ema no horizonte ao anoitecer indica a chegada do inverno e o início da estação seca, enquanto o surgimento do Homem Velho marca o fim da estação das chuvas, orientando, assim, as melhores épocas para o plantio e a colheita. As narrativas míticas, como a de Jaci (a Lua) e Guaraci (o Sol), foram adaptadas à faixa etária dos alunos e apresentadas como um método pedagógico sofisticado de transmissão oral, capaz de condensar os complexos conhecimentos empíricos em histórias culturalmente significativas. Na atividade de culminância, os estudantes foram convidados a produzir uma pintura e um conto que explicasse a relação cosmológica entre o Sol e a Lua, a partir das perspectivas discutidas. Esse exercício prático permitiu-lhes traduzir observações naturais em formas criativas de conhecimento transmissível, valorizando suas próprias formas de expressão artística e interpretação do mundo. Os resultados qualitativos, observados através da participação, dos diálogos e das produções dos estudantes, evidenciaram a eficiência da abordagem em tornar o conteúdo científico em algo significativo, palpável e acessível. A metodologia promoveu alto engajamento, estimulou a valorização da ciência indígena e reforçou o sentimento de pertencimento e orgulho cultural. Conclui-se, portanto, que a Etnoastronomia é uma potente ferramenta pedagógica, indispensável para o enriquecimento do currículo de Ciências através da interculturalidade e da história, tornando-o mais diverso, dinâmico e alinhado às diretrizes legais. Ao fazê-lo, demonstra-se como diferentes culturas produzem saberes científicos complexos e aplicados, contribuindo de forma decisiva para uma educação científica mais justa, crítica e decolonial.Downloads
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Publicado
2025-10-24
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
A Promoção da Etnoastronomia Através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Docência. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120709. Acesso em: 15 maio. 2026.