Novo Ensino Médio e Educação do Campo: Oportunidades e Desafios na Realidade Rural

Autores

  • Karla dos Santos Terra
  • Everton Soares Fontoura
  • Aniara Ribeiro Machado

Palavras-chave:

Educação, Campo, Itinerários, formativos, Sustentabilidade, Rural

Resumo

Historicamente, as escolas do campo enfrentam desafios relacionados à falta de infraestrutura, como as longas distâncias entre as localidades e a escassez de políticas públicas efetivas. Esses obstáculos têm contribuído para que a população rural permaneça cada vez menos tempo na escola (CALDART, 2009). O objetivo deste texto é analisar os desafios da educação do campo e como o Novo Ensino Médio pode ser uma ferramenta para melhorar o ensino, valorizando a cultura camponesa, promovendo a inclusão social e incentivando a permanência dos estudantes nas escolas rurais. A metade sul do Rio Grande do Sul é um exemplo significativo, onde as grandes distâncias dificultam qualquer ação no meio rural desde a colonização. Segundo Rocha et al. (2013), o modelo de latifúndio adotado pelos portugueses para a criação extensiva de gado impediu a formação de grandes concentrações populacionais na região da Campanha. Por outro lado, a colonização espanhola estabeleceu-se nas fronteiras com o Uruguai e a Argentina, influenciando a cultura local com práticas hispânicas. Essas distâncias e a estrutura fundiária ainda prevalecem, e a adoção de culturas como arroz e soja pouco alterou a lógica colonial. Esse contexto histórico também está alinhado aos interesses dos grandes proprietários de terras (latifundiários). A industrialização brasileira, que se iniciou apenas na década de 1930, durante a Era Vargas, pensava na população rural como uma mão de obra qualificada, devido à crise do café e à necessidade de diversificação econômica. A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1961 visava modernizar o sistema educacional, enquanto a LDB de 1971 reforçou a ideia de qualificação para o mercado de trabalho. Contudo, essas leis frequentemente atendiam mais aos interesses dos empregadores do que aos reais benefícios da população rural. A verdadeira transformação na educação do campo começou com o surgimento dos movimentos sociais, que passaram a exigir que o foco da educação fosse não apenas a qualificação do trabalhador, mas também a garantia de dignidade, valorização cultural, construção da identidade e reconhecimento da cidadania, mesmo no meio rural. A LDB de 1996, por exemplo, assegurou a educação para as populações rurais, mas na prática, a implementação de políticas educacionais ficou comprometida, especialmente com o processo de nucleação das escolas, que dificultou a permanência dos alunos. Muitos jovens abandonam a escola para trabalhar nas lavouras, assumindo responsabilidades de agricultores ainda muito jovens, com 16 anos já sendo emancipados pelos pais para gerenciar a terra. Nesse contexto, o Novo Ensino Médio, instituído pela Lei nº 13.415/2017, surge como uma oportunidade de adaptar o currículo escolar à realidade do campo. A proposta dos itinerários formativos permite a construção de percursos de aprendizagem que dialogam diretamente com o território, a cultura e os saberes locais. Esses itinerários podem ser desenvolvidos de maneira contextualizada. Nas Ciências da Natureza e suas Tecnologias, por exemplo, os alunos podem estudar agroecologia, manejo do solo, preservação de nascentes, práticas agrícolas sustentáveis e o uso consciente dos recursos naturais. Nas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, pode-se promover a valorização da história da colonização, análise crítica das relações de trabalho no campo, estudo das lutas sociais e fortalecimento da identidade camponesa. Nos itinerários de formação técnica e profissional, é possível oferecer cursos voltados para agroindústria, zootecnia, gestão rural ou vitivinicultura, proporcionando aos jovens maior qualificação e autonomia para permanecer no campo. O Projeto de Vida, um dos componentes do Novo Ensino Médio, é um espaço para que os estudantes planejem seu futuro, relacionando seus sonhos e perspectivas com a permanência e o desenvolvimento sustentável no campo. Dessa forma, o Novo Ensino Médio vai além de uma simples reformulação curricular, tornando-se uma ferramenta para fortalecer a educação do campo. Ao valorizar a cultura camponesa, promover a inclusão social e estimular a permanência dos jovens na escola, os itinerários formativos oferecem uma oportunidade concreta para transformar a realidade rural. O Novo Ensino Médio, com sua proposta de itinerários formativos contextualizados, pode se tornar um instrumento de dignidade, cidadania e desenvolvimento local, contribuindo significativamente para a melhoria da educação no campo, levando em consideração as especificidades e as necessidades da população rural. Dessa forma, a educação no campo pode ser transformada em um verdadeiro agente de mudança, proporcionando aos estudantes as condições para um futuro mais autônomo, qualificado e sustentável.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

Novo Ensino Médio e Educação do Campo: Oportunidades e Desafios na Realidade Rural. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120698. Acesso em: 14 maio. 2026.