Educação, Gênero e Raça: Uma Análise Interseccional do Filme Que Horas Ela Volta?

Autores

  • Ynara Maidana
  • Jonathan Jardim da Silva
  • Fabiane Silva

Palavras-chave:

Artefato, Cultural, Interseccionalidade, Gênero

Resumo

O presente trabalho é fruto das reflexões construídas ao longo da disciplina Corpo, Gênero, Sexualidade e Relações Étnico-Raciais, do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências, campus Uruguaiana. Tendo como principal intencionalidade analisar o trabalho doméstico como prática cultural de produção de desigualdades sociais, e de problematizar o papel da mulher negra nesse espaço historicamente marcado pela servidão, este trabalho tem caráter qualitativo, utilizando como instrumento a análise cultural, pensada a partir do campo teórico dos estudos culturais em sua vertente pós-estruturalista. O filme Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert (2015) é aqui tomado como objeto de análise, por condensar tensões sociais e pedagógicas do contexto brasileiro contemporâneo. O enredo teórico que sustenta a discussão articula os marcadores sociais da diferença com a noção de interseccionalidade, a fim de compreender como raça, classe e gênero se entrecruzam na configuração do trabalho doméstico. A presença da mulher negra nos lares de famílias brancas, ao longo da história, não se reduz às tarefas manuais, mas abarca o cuidado e a educação dos filhos dos patrões, consolidando-se como forma de pedagogia invisibilizada. Nesse processo, a casa se constitui como espaço de naturalização das desigualdades, onde o afeto e a proximidade não rompem as fronteiras hierárquicas, mas, ao contrário, reforçam a subalternização das mulheres. O filme em questão evidencia esse cenário ao narrar a trajetória de Val, empregada que vive entre sacrifícios e afetos, e que dedica sua vida ao filho dos patrões, sem que isso lhe confira reconhecimento social. A divisão simbólica do espaço doméstico o quarto de empregada, a cozinha, a mesa de jantar, a piscina demarca-nos as fronteiras entre quem serve e quem usufrui. A chegada de sua filha, Jéssica, desestabiliza essa ordem ao se recusar a ocupar o mesmo lugar de servidão da mãe, evidenciando que a desigualdade se sustenta tanto em práticas materiais quanto em códigos culturais ali estabelecidos. Os resultados da análise apontam que o trabalho doméstico, longe de ser mero serviço privado, constitui-se como um campo de educação não formal, onde circulam saberes, valores e práticas que moldam a vida social. Ao mesmo tempo, a naturalização da presença da mulher negra nesse espaço confirma a permanência de estruturas herdadas da escravidão, que restringem sua mobilidade social e simbólica. A relação entre patrões e empregadas revela como a sociedade brasileira produz e reproduz, cotidianamente, formas de exclusão, ao mesmo tempo em que depende do trabalho e do cuidado dessas mulheres para se sustentar. Por fim, percebe-se que a análise de artefatos culturais como o filme Que Horas Ela Volta? permite visibilizar contradições entre afeto e exploração, cuidado e desigualdade, servidão e resistência. Ao considerar a interseccionalidade como chave analítica, compreende-se que a mulher negra não é apenas força de trabalho, mas também educadora social invisibilizada, responsável pela transmissão de saberes no espaço doméstico. Essa perspectiva amplia a compreensão da educação contemporânea, ao reconhecer que ela não se restringe às instituições escolares, mas também se constrói em territórios atravessados por relações de poder e de subalternidade. Desse modo, torna-se possível compreender que o espaço doméstico, muitas vezes visto como privado e restrito, é também um lugar de produção de subjetividades, de aprendizagens sociais e de reprodução de desigualdades. A análise desse contexto revela que, mesmo em situações de invisibilidade, a atuação da mulher negra carrega dimensões pedagógicas e políticas que atravessam gerações, reafirmando a necessidade de uma leitura crítica sobre a forma como raça, gênero e classe se articulam na manutenção das hierarquias sociais.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

Educação, Gênero e Raça: Uma Análise Interseccional do Filme Que Horas Ela Volta”?. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120695. Acesso em: 14 maio. 2026.