Etarismo Como Barreira Invisível na Trajetória Pós-EJA

Autores

  • Rute Souza
  • Cristiane Lopes
  • Paulo Sérgio Machado Alves
  • Kamily Rodrigues Perez
  • Claudia Maria Gravi Silveira
  • Eril Medeiros da Fonseca

Palavras-chave:

Preconceito, Educação, Jovens, Adultos, Inclusão, Profissional

Resumo

O presente resumo busca discutir a problemática multifacetada do etarismo enfrentada por estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no momento crucial em que concluem seus estudos, analisando como o preconceito de idade se torna um obstáculo significativo e, por vezes, intransponível para a plena realização dos objetivos que os motivaram a retornar à escola. Este retorno ao ambiente educacional formal representa, para muitos, um ato de resiliência e esperança. O reingresso aos estudos é impulsionado, frequentemente, por um anseio profundo de ascensão profissional, pela necessidade urgente de reinserção em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, ou pela realização pessoal e simbólica de obter uma certificação que lhes foi negada no passado por razões socioeconômicas, como a necessidade de ingresso precoce no trabalho para sustento familiar ou a falta de acesso a instituições de ensino. Contudo, ao finalizarem essa etapa de superação e conquista, esses indivíduos deparam-se com uma barreira invisível, porém extremamente potente: a discriminação etária. O etarismo se manifesta de formas sutis e explícitas, questionando sistematicamente sua capacidade de aprender, de se adaptar a novas tecnologias e de contribuir ativamente em ambientes laborais que, impulsionados por uma cultura de inovação disruptiva, são cada vez mais focados na juventude como sinônimo de produtividade e dinamismo. Essa visão distorcida ignora que muitos desses estudantes da EJA desenvolveram habilidades digitais justamente durante o processo de escolarização, demonstrando uma notável capacidade de adaptação. Para aprofundar a compreensão deste fenômeno social, foi realizada uma revisão de literatura com abordagem predominantemente qualitativa, analisando estudos de caso em textos disponíveis online que investigam as trajetórias e os percalços de egressos da EJA. A metodologia destes trabalhos frequentemente se baseia em entrevistas semiestruturadas e na análise do discurso dos próprios estudantes, permitindo uma imersão em suas vivências e a captação de suas percepções, frustrações e estratégias de enfrentamento. Tais abordagens metodológicas são cruciais para dar voz a um grupo muitas vezes silenciado pelas estatísticas. Os resultados revelam um cenário preocupante. Apesar da conquista do diploma um marco que deveria abrir portas , muitos formandos mais velhos encontram dificuldades acentuadas para conseguir uma promoção em seus empregos atuais ou para encontrar uma nova colocação profissional. Eles são frequentemente preteridos em processos seletivos que, de forma velada ou explícita, valorizam a juventude em detrimento da experiência acumulada. As pesquisas indicam que o mercado de trabalho tende a associar a idade a um conjunto de estereótipos negativos, como desatualização tecnológica, lentidão cognitiva, resistência a mudanças e menor "energia" para o trabalho. Esses estigmas infundados ignoram qualidades valiosas que a maturidade traz, como o comprometimento, a inteligência emocional, a resolução de conflitos, a lealdade e uma rica bagagem de vida que pode agregar enorme valor a qualquer equipe. Outro resultado significativo, e talvez o mais danoso, é o profundo impacto psicossocial do etarismo, que gera sentimentos de inutilidade, obsolescência e frustração, podendo ofuscar a alegria e o orgulho da formatura. Muitos relatam que, enquanto a EJA representou um espaço de acolhimento, empoderamento e superação de limites, o mundo exterior, especialmente o corporativo, se mostrou excludente e invalidante. O diploma, que simbolizava uma chave para um futuro melhor, corre o risco de se tornar um lembrete amargo de um preconceito que a educação, sozinha, não conseguiu vencer. Essa dissonância entre a valorização no ambiente escolar e a desvalorização no ambiente profissional pode levar a quadros de desânimo e até mesmo depressão. Conclui-se, portanto, que a conclusão dos estudos na EJA, embora seja uma vitória pessoal inegável e um passo fundamental para o exercício pleno da cidadania, não garante, por si só, a inclusão social e profissional de seus egressos mais velhos. O combate ao etarismo emerge como uma pauta urgente e necessária. Essa luta deve envolver não apenas a criação e fiscalização de políticas públicas de incentivo à contratação de profissionais maduros como cotas ou benefícios fiscais para empresas , mas também uma profunda e contínua transformação cultural na sociedade e, principalmente, no mercado de trabalho. É preciso reeducar gestores e recrutadores para que o valor da educação seja reconhecido em todas as fases da vida e para que a experiência seja vista como um ativo estratégico, e não como um fardo. A EJA cumpre seu papel pedagógico e social ao formar e emancipar, mas a sociedade falha ao não acolher e valorizar plenamente o imenso potencial de seus formandos.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

Etarismo Como Barreira Invisível na Trajetória Pós-EJA. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120691. Acesso em: 14 maio. 2026.