NARRATIVAS DE SI: A EXPERIÊNCIA COM O GÊNERO DIÁRIO NA FORMAÇÃO DOCENTE EM CONTEXTOS EAD

Autores

  • Thiago Terres
  • Naiara Souza da Silva

Palavras-chave:

Escrita, si, Gênero, diário, Formação, docente

Resumo

O trabalho foi desenvolvido no âmbito da disciplina Práticas de Linguagem III, do curso de Letras EAD da UNIPAMPA, ministrada pela professora Naiara Souza da Silva, e teve como foco a exploração do gênero textual diário, articulando a escrita criativa com a perspectiva da escrita de si e da escrita terapêutica. A proposta metodológica da disciplina, estruturada em três módulos preparação, produção e reflexão , buscou estimular a autoria discente e a experimentação de diferentes estratégias de expressão narrativa em um contexto de formação a distância, no qual a escrita se tornou também espaço de encontro e partilha entre os estudantes. No primeiro módulo, foram retomados conceitos sobre texto, gêneros textuais e produção de sentidos, discutindo-se ainda a relevância da escrita de si como espaço de subjetividade e construção identitária. No segundo módulo, os estudantes foram convidados a realizar, ao longo de sete dias corridos, registros narrativos autorais em formato de diário, prática que lhes possibilitou refletir criticamente sobre sua própria experiência e desenvolver autonomia criativa. Já no terceiro módulo, foram promovidos encontros síncronos de partilha, em que os discentes leram trechos de seus diários em rodas de leitura, ampliando a reflexão coletiva, além de um fórum específico, em que cada estudante produziu uma reflexão individual sobre o percurso vivido no componente, destacando conquistas, dificuldades e aprendizagens. As rodas de leitura revelaram aspectos significativos do processo: alguns estudantes do sexo masculino relataram que nunca haviam tido contato com a escrita de diários, pois esse gênero era tradicionalmente associado ao universo feminino. Ao vivenciarem a proposta, puderam ressignificar essa prática e reconhecer o diário como instrumento legítimo de reflexão e autoconhecimento, rompendo com estigmas de gênero que restringiam sua expressão. Para outros participantes, a experiência foi marcante porque se distanciava do modelo da escrita acadêmica tradicional, em que a voz pessoal frequentemente é silenciada em favor de referenciais teóricos. A proposta trouxe, assim, a possibilidade de compreender que toda escrita é também atravessada pela perspectiva do autor e que narrar a própria história é um exercício de legitimação da experiência e de construção de identidade. Esse deslocamento provocou reflexões importantes sobre autoria, voz e subjetividade, ressaltando que, para o futuro professor de Letras, a vivência da escrita de si é essencial para compreender a dimensão humana da linguagem e para valorizar a potência do discurso pessoal em meio às práticas sociais e acadêmicas. Como encaminhamento final, surgiu a proposta de compilar os textos em um e-book coletivo, de caráter autobiográfico e narrativo, reunindo as produções do semestre e publicizando a experiência. Mais do que um produto final, o e-book representa a materialização do vir a ser autor, pois transforma o exercício individual em uma obra coletiva, conferindo visibilidade, reconhecimento e permanência às vozes dos estudantes. A análise do percurso evidencia que o trabalho com o gênero diário, em sua dimensão auto narrativa, favorece tanto o aprimoramento da escrita quanto a constituição da identidade autoral, aspecto essencial na formação do futuro professor de Letras, que precisa vivenciar a escrita como experiência para compreender e ensinar a língua em sua complexidade. Nessa perspectiva, a proposta dialoga com Koch (2007, 2015), ao enfatizar a construção de sentidos e a argumentação presentes nos textos, e com Marcuschi (2008), ao destacar o papel dos gêneros na mediação das práticas discursivas, mas também se aproxima de Foucault (1992), ao considerar a escrita de si como prática formativa e subjetiva, e de Larrosa (2002), ao compreender a narrativa como experiência constitutiva do sujeito. Assim, a disciplina permitiu integrar fundamentos teóricos e experiência prática em EAD, ampliando o repertório formativo dos acadêmicos e reafirmando a escrita como exercício criativo, formativo e emancipador, cuja dimensão autoral contribui para a constituição do sujeito e para a singularidade da trajetória de formação docente.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

NARRATIVAS DE SI: A EXPERIÊNCIA COM O GÊNERO DIÁRIO NA FORMAÇÃO DOCENTE EM CONTEXTOS EAD. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120672. Acesso em: 14 maio. 2026.