Distopia e utopia no livro O conto da Aia de Margaret Atwood

Autores

  • Paulo Rogério da Rosa Correa

Palavras-chave:

Distopia, Utopia, Totalitarismo, Servidão

Resumo

O trabalho tem por objetivo uma abordagem do livro O conto da Aia de Margaret Atwood por meio dos conceitos de distopia e utopia. Distopia é uma palavra grega que significa lugar ruim, perverso, cruel, etc. e se refere a uma representação na qual o futuro é concebido como um lugar dominado por organizações ou lideres perversos que na busca para eliminar a desordem social concebem uma forma social em que a segurança e a estabilidade tomam o lugar das liberdades e da autonomia dos indivíduos. Em O conto da Aia Atwood faz a fusão entre a temática da distopia com a necessária reflexão sobre o papel das mulheres. Todavia, não se trata apenas de uma crítica a um futuro possível que Atwood faz. Quando se escreve sobre distopia fica subentendido, nas entrelinhas, o seu oposto, ou seja, a utopia. Se distopia é um lugar ruim, a utopia é um não lugar no sentido de desejar, aspirar a uma condição melhor no futuro, como na acepção originária do filósofo inglês Tomas More no século XVI. O trabalho de pesquisa está escorado em duas justificativas. A primeira delas diz respeito ao fato de, embora a distopia incida sobre o futuro é em nome do presente que se opera suas reflexões. O conto da Aia é escrito em 1985 como denúncia do tempo presente e da situação que as mulheres vivenciam. A segunda justificativa, é que uma distopia não faz necessariamente uma crítica de uma sociedade totalitária, ela pode também incidir sobre as sociedades ditas democracias que de formas subterrâneas restringem as liberdades e transforma as diferenças em desigualdades. A pesquisa tem sua metodologia baseada em uma análise conceitual do livro O conto da Aia. Neste entendimento, o conceito de totalitarismo exposto pela filósofa alemã Hannah Arendt é de fundamental importância para compreender o sentido político das reflexões de Atwood. Em As origens do totalitarismo Arendt analisa os acontecimentos que se sucedem a dissolução das estruturas do Estado moderno e a necessária instrumentalização de um grupo como bode expiatório da crise, que na emergência do estado totalitário nazista são os judeus, mas no contexto da obra de Atwood são as mulheres. Ou seja, governos usam situações de emergências e crises para suspender direitos e justificar medidas autoritárias, sendo latente o quanto as crises são exploradas por grupos extremistas afim de impor seus projetos de sociedade baseada no medo. Arendt define o totalitarismo como um regime radicalmente novo, distinto de outras formas de tirania ou autoritarismo, pois o totalitarismo busca não apenas controlar, mas transformar a própria natureza humana através do terror e da ideologia. Há, portanto, uma narrativa que explica e justifica as ações do regime. Em O conto da Aia é a crise de natalidade que dá suporte e serve como justificativa para a ascensão de um governo tirano. Através do terror, que não é apenas um meio de repressão, mas um fim em si mesmo, toda a individualidade é anulada. A destituição da individualidade faz-se necessária como meio de manutenção do sistema. Todavia, é preciso refletir sobre como um sistema totalitário se constitui, como ele se torna onipresente regrando e controlando tudo e todos. Neste entendimento, o conceito de servidão voluntária do francês Étienne de La Boétie, do século XVI, pode nos ajudar a compreender a obediência e a opressão. Através da obra de La Boétie é possível refletir sobre o papel das personagens representadas pelas tias. Na sociedade denunciada por Atwood, elas usam vestes da cor marrom e são as guardiãs do sistema. Mas também verificar que parte das aias justificam a opressão por medo ou por doutrinação religiosa. Neste sentido, a conduta das esposas como, por exemplo Serena Joy, colabora ativamente com o sistema de opressão. Em outras palavras, elas são mulheres responsáveis por manterem a opressão sobre as próprias mulheres. La Boétie sugere que o poder só é tão poderoso por que ele encontra respaldo e consentimento entre aqueles próprios que são os seus alvos. Isto é, sob o peso da tradição e dos costumes os oprimidos transformam a opressão em algo natural e a concebem como inevitável. É a força do hábito que perpetua o sistema de dominação, mas também distrações e espetáculos públicos numa espécie de política de pão e circo como as execuções públicas (na obra chamadas de Salvamentos). La Boétie pensa que o poder se sustenta também escorado em um grupo, uma minoria privilegiada fazendo com que a liberdade, que é um desejo inato ao ser humano, seja corrompida pela tirania. As reflexões de La Boétie e de Hannah Arendt auxiliam na compreensão da intricada rede que sustenta os poderes tirânicos. Assim, a reflexão sobre os futuros possíveis das distopias é, no fundo, uma reflexão sobre o futuro que se deseja da utopia. Em outras palavras, a sociedade distópica descrita por Atwood é uma poderosa imagem de denúncia que incide sobre o tempo presente.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

Distopia e utopia no livro O conto da Aia de Margaret Atwood. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120627. Acesso em: 14 maio. 2026.