Entre a Força e o Capital Cultural: de Ausubel a Bourdieu, Uma Crítica Meritocracia

Autores

  • Felipe Fagundes
  • Ketherine Acosta dos Santos
  • Evandro Ricardo Guindani
  • Yáskara Michele Neto Koga

Palavras-chave:

Aprendizagem, Significativa, SAERS, Vygotsky, Filosofia, Bourdieu

Resumo

O presente trabalho resulta da integração de duas propostas de pesquisa para refletir sobre o ensino, nesse caso o de filosofia mediante a utilização do cinema como ferramenta pedagógica, destacando em especial a ficção científica, gênero que, ao conjugar imaginação e crítica social, possibilita um espaço privilegiado de reflexão filosófica. A inspiração principal está no conceito de estranhamento cognitivo elaborado por Darko Suvin, entendido como o mecanismo pelo qual a ficção científica cria mundos alternativos, ao mesmo tempo em que se distanciam da realidade imediata, permitindo enxergá-la de maneira renovada e crítica. Nesse sentido, a saga Star Wars é tomada como exemplo paradigmático, por se tratar de um fenômeno cultural e midiático que atravessa gerações e suscita debates em torno de identidade, poder, ética, política e religião, temas que dialogam diretamente com a filosofia escolar. O estudo ancora-se nas teorias da aprendizagem significativa de David Ausubel e na zona de desenvolvimento proximal de Lev Vygotsky, trazendo a importância de relacionar o conteúdo formal às experiências prévias e interesses concretos dos alunos. Para além dessas bases, adota-se também a perspectiva sociológica de Pierre Bourdieu, notadamente a noção de capitais culturais, compreendidos como recursos simbólicos que condicionam o acesso, a fruição e a interpretação de bens culturais e educacionais, influenciando decisivamente as trajetórias escolares. O objetivo central da pesquisa é investigar de que modo o uso do cinema de ficção científica pode aproximar os conteúdos filosóficos da realidade dos estudantes, ao mesmo tempo em que amplia o repertório cultural e fomenta o engajamento crítico, de modo que a sala de aula se converta em espaço de análise das formas de legitimação, hierarquização e consumo da cultura. A proposta pedagógica busca oferecer alternativas às práticas tradicionais, favorecendo um ensino em que narrativas ficcionais sirvam como disparadoras de problematizações filosóficas, explorando a potência do estranhamento cognitivo como método para questionar naturalizações e estimular o pensamento crítico. Tal abordagem, contudo, não pode ser dissociada do contexto político e educacional brasileiro, marcado pela centralidade das avaliações externas em larga escala, como o SAERS, e por iniciativas de caráter meritocrático, a exemplo do Prêmio Alfabetiza Tchê. Tais políticas, ao estabelecerem metas numéricas e premiar escolas e municípios que alcançam determinados indicadores, desconsideram as condições concretas em que o trabalho pedagógico se desenvolve, invisibilizando desigualdades históricas e estruturais que marcam a rede escolar gaúcha. Ao analisar essas práticas à luz de Bourdieu, evidencia-se que a meritocracia educacional opera mascarando a reprodução social, ao atribuir exclusivamente ao esforço individual de professores e alunos a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso, ignorando que a distribuição desigual de capitais culturais e de condições objetivas de estudo determina em grande medida os resultados. Essa lógica de premiação, em vez de promover a cooperação entre comunidades escolares, reforça a competição e a culpabilização, criando hierarquias simbólicas que acentuam as desigualdades. Nesse contexto, a utilização do cinema de ficção científica como recurso no ensino de filosofia não se limita a diversificar metodologias, mas propõe também um movimento de resistência a essas lógicas excludentes, ao possibilitar que estudantes de diferentes origens acessem um repertório cultural amplo e crítico, desenvolvam novas formas de leitura da realidade e reconheçam o valor de suas próprias experiências no processo educativo. A provável conclusão do estudo é que o ensino de filosofia, articulado à cultura midiática contemporânea, pode constituir-se como espaço privilegiado de reflexão crítica, capaz de desvelar os mecanismos de reprodução das desigualdades e de propor alternativas emancipatórias. Reconhecer a diversidade de capitais culturais dos estudantes, valorizar suas referências identitárias e promover experiências de estranhamento cognitivo são, portanto, estratégias centrais para a construção de uma educação significativa, inclusiva e comprometida com a justiça social, que resista aos discursos meritocráticos e se afirme como prática emancipatória.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

Entre a Força e o Capital Cultural: de Ausubel a Bourdieu, Uma Crítica Meritocracia. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120591. Acesso em: 15 maio. 2026.