Jiu-jitsu na Escola: Uma Prática Pedagógica de Inclusão e Transformação Social

Autores

  • Julia da Rosa Pires
  • Allison Pinto Sabedra
  • Nathan Soares
  • Marta Íris Camargo Messias da Silveira
  • Diego de Matos Noronha

Palavras-chave:

Educação, Física, escolar, cultura, corporal, formação, integral

Resumo

As práticas corporais, quando inseridas no ambiente escolar, podem desempenhar um papel fundamental na formação integral dos estudantes, ampliando suas experiências e contribuindo para o desenvolvimento físico, social e emocional. Nesse sentido, as lutas, muitas vezes estigmatizadas pela associação com violência, revelam-se como importantes ferramentas pedagógicas, capazes de promover disciplina, respeito e convivência ética. O presente trabalho teve como objetivo relatar ações realizadas sobre a temática de lutas na cultura corporal, reafirmando o papel social que a modalidade desempenha dentro do contexto escolar. Trata-se de um estudo com abordagem qualitativa, do tipo relato de experiência, desenvolvido na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Moacyr Ramos Martins, localizada no bairro União das Vilas, em Uruguaiana-RS. A instituição, situada em uma comunidade marcada por vulnerabilidade social, violência e desestruturação familiar, tem buscado enfrentar esses desafios por meio de práticas educativas inovadoras e diversificadas, que incluem esportes coletivos, dança, robótica e, mais recentemente, a implantação do Projeto Faixa Branca de Iniciação ao Jiu-Jitsu. Essa iniciativa, realizada em parceria com o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), representa uma alternativa concreta para oferecer novas possibilidades de vivência corporal e cultural aos estudantes, afastando-os de contextos de risco e consolidando-se como um instrumento de transformação social. O projeto é direcionado a crianças entre 6 e 12 anos e acontece semanalmente, em dois grupos distintos, em aulas noturnas realizadas em espaço com infraestrutura modesta, o que exige adaptações e cuidados específicos para garantir a segurança dos participantes. As atividades são conduzidas sem uso do kimono (no gi) e baseiam-se em uma proposta pedagógica lúdica, inclusiva e progressiva, que respeita as particularidades do público infantojuvenil. Para além do desenvolvimento físico e motor, busca-se estimular aspectos emocionais e sociais, evidenciando que o jiu-jitsu pode ser compreendido como uma prática educativa orientada por princípios como respeito, disciplina, hierarquia e autocontrole. Essa perspectiva contribui para desconstruir visões equivocadas que associam as lutas apenas à violência ou às brigas, deslocando o olhar para seu potencial formativo e para a valorização de relações interpessoais saudáveis. Os resultados observados até o momento demonstram que os estudantes têm vivenciado o jiu-jitsu como uma prática corporal que ultrapassa o simples combate físico, transformando-se em um espaço de aprendizagem ética e social. Além disso, evidenciou-se a construção de uma relação mais sólida entre alunos e professores, marcada pela confiança e pelo respeito mútuo. Outro aspecto relevante foi a melhora significativa na agressividade de alguns participantes, que passaram a demonstrar maior autocontrole e capacidade de convivência nas aulas e em outros espaços escolares. Ressalta-se, ainda, que, por se tratar de um projeto e não de uma disciplina obrigatória, a adesão dos estudantes ocorre de forma voluntária, sendo expressivo o interesse pela prática da luta, muitos alunos demonstram assiduidade e participação ativa, o que reforça a relevância da proposta. O projeto também tem sido bem acolhido pela comunidade escolar, mesmo em um contexto marcado pelo preconceito que se tem em relação ao bairro que, historicamente é colocado à margem na perspectiva social, o que evidencia a potência do jiu-jitsu como prática educativa transformadora. Conclui-se, portanto, que o projeto Faixa Branca tem se consolidado como uma iniciativa significativa para ressignificar o lugar das lutas no contexto escolar, rompendo com preconceitos e ampliando o repertório cultural dos estudantes. O jiu-jitsu, mais do que uma técnica de combate, revela-se como uma linguagem corporal rica em significados, capaz de dialogar com a subjetividade e de contribuir para a construção de um ambiente educativo mais justo, seguro e inclusivo. Nesse sentido, reafirma-se a importância de considerar as lutas como práticas legítimas da Educação Física escolar, alinhadas aos princípios da educação integral e à função social da escola pública, valorizando a formação cidadã e o desenvolvimento humano em sua totalidade.

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Publicado

2025-10-24

Como Citar

Jiu-jitsu na Escola: Uma Prática Pedagógica de Inclusão e Transformação Social. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120586. Acesso em: 14 maio. 2026.