Observatório Acerca do Feminismo Negro: Saberes Ancestrais em Ação

Autores

  • Cristiane Machado Farias
  • Antonia Bonorino Diatel Ribeiro
  • Alessandra Chimendes Cordeiro
  • Marta Íris Camargo Messias da Silveira
  • Diego de Matos Noronha

Palavras-chave:

Saberes, ancestrais, Feminismo, negro, Interseccionalidade

Resumo

O feminismo negro tem se consolidado no Brasil como uma perspectiva teórica, política e social fundamental para compreender as desigualdades estruturais que atravessam a vida das mulheres negras. Ao articular raça, gênero e classe, esse campo de pensamento evidencia como as experiências dessas mulheres são marcadas por opressões múltiplas, mas também por formas de resistência, memória e produção de conhecimento que foram historicamente marginalizadas. Nesse contexto, os saberes ancestrais carregados e transmitidos entre gerações emergem como força de preservação cultural, afirmação identitária e elaboração de práticas de enfrentamento às desigualdades. A valorização desses saberes contribui não apenas para a crítica ao padrão eurocêntrico de conhecimento, mas também para a construção de caminhos pedagógicos e políticos decoloniais, capazes de ampliar horizontes de emancipação social. É nesse horizonte que se insere a presente pesquisa, comprometida em resgatar, sistematizar e legitimar os conhecimentos produzidos por mulheres negras, em diálogo com a universidade e com os movimentos sociais. O presente trabalho tem como proposta discutir e valorizar os saberes ancestrais produzidos por mulheres negras, compreendendo-os como centrais para refletir sobre as múltiplas formas de dominação que atravessam suas vidas e trajetórias, especialmente a partir das intersecções entre gênero, raça e classe. Esses saberes, transmitidos entre gerações e muitas vezes silenciados pelo colonialismo e pelo racismo estrutural, configuram-se como fontes legítimas de resistência e de produção de conhecimento, fundamentais para a construção de práticas educativas e sociais comprometidas com a transformação. A pesquisa parte da concepção de que o feminismo negro não deve ser entendido apenas como uma luta identitária, mas como um projeto político de emancipação coletiva, que denuncia a estrutura de privilégios da branquitude e o modo como a sociedade brasileira organiza pactos de manutenção de poder, marginalizando e invisibilizando corpos, narrativas e experiências de mulheres negras. Ao valorizar a ancestralidade, a memória e a escuta dessas mulheres, busca-se questionar o padrão eurocêntrico de conhecimento, ampliar as formas de compreender a realidade e propor alternativas pedagógicas e sociais de caráter decolonial. A noção de Sankofa, símbolo da cultura africana que remete à importância de aprender com o passado para orientar o futuro, é referência central da proposta e fundamenta a valorização das memórias, narrativas e práticas sociais das mulheres negras como elementos orientadores de resistência e reexistência. Metodologicamente, o estudo se estrutura em uma abordagem qualitativa que combina revisão bibliográfica, análise documental e interação com o coletivo Saber Ancestral, composto por mulheres negras de Uruguaiana/RS. A revisão bibliográfica contempla os principais fundamentos teóricos e históricos do feminismo negro e das pedagogias decoloniais, ao passo que a análise documental abrange registros acadêmicos, pedagógicos e produções de movimentos sociais que tematizam a questão racial e de gênero. Já a interação com o coletivo valoriza a escuta e o diálogo horizontal, reconhecendo as mulheres como protagonistas de suas histórias e produtoras de saberes situados. Como resultados parciais, temos a criação de um observatório vinculado ao NEABI Mãe Fausta, que reúne e sistematiza os saberes ancestrais em diferentes formatos, como textos, entrevistas, registros audiovisuais e materiais pedagógicos, de forma acessível e dialógica. Esse espaço deve funcionar como ponto de articulação entre a universidade e os movimentos sociais, fortalecendo práticas pedagógicas antirracistas e decoloniais, além de potencializar ações de formação docente comprometidas com a equidade. A consolidação do observatório visa, ainda, contribuir para a democratização do acesso ao conhecimento produzido pelas mulheres negras e ampliar sua legitimidade no campo acadêmico, social e cultural. Conclui-se que a valorização dos saberes ancestrais das mulheres negras ultrapassa o simples resgate de memórias e se constitui como um ato político e educativo, capaz de questionar as estruturas de desigualdade racial e de gênero e, ao mesmo tempo, de afirmar as mulheres negras como centrais na construção de futuros mais justos, democráticos e emancipatórios.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

Observatório Acerca do Feminismo Negro: Saberes Ancestrais em Ação. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 6, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120451. Acesso em: 17 abr. 2026.