A Ciranda Infantil na Perspectiva da Educação do Campo

Autores

  • Gabriela Viana Mendilarzu
  • Gabriela Viana Mendilarzu
  • Adriana Amaro
  • Rafaeli Sales
  • Jane Mara Calcado Nunes
  • Maissa Antunes de Azevedo
  • Jonas Anderson Simões das Neves

Palavras-chave:

Movimentos, sociais, mães-estudantes, direito, educação

Resumo

A história da Educação do Campo no Brasil está imbricada a luta dos movimentos sociais, destacadamente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), pelo direito à terra, dado que a perspectiva da conquista do lote trazia consigo um projeto de transformação da sociedade na perspectiva agroecológica. Nestes termos, não bastava acessar uma escola que reproduzisse o modelo da educação rural, mas sim se fazia necessário criar um outro projeto de educação, com perspectiva emancipatória, capaz de preparar os acampados e assentados para viver e trabalhar na terra e continuar a luta para construção de uma sociedade agroecológica. E foi no âmbito dessas lutas que surgiram as cirandas infantis, espaços coletivos criados para garantir que as mães pudessem participar dos processos de organização e de lutas do MST. Todavia, mais do que um espaço compartilhado de cuidado com as crianças, em que militantes do movimento se revezam no cuidado das mesmas enquanto suas mães ocupam outros espaços, as cirandas infantis tiveram como objetivo também a formação das crianças, de modo que pudessem entender e, a sua maneira, participar dos processos de luta em que estavam envolvidas suas mães. Os cursos de Educação do Campo são produtos dessa luta, com objetivo de formar professores habilitados para trabalhar a formação dos estudantes do campo em perspectiva agroecológica, neste sentido as cirandas infantis criadas no âmbito das licenciaturas têm como objetivo acolher os filhos das estudantes camponesas enquanto sujeitos de luta, desenvolvendo atividades que dialoguem com suas culturas e capazes de contribuir com sua inserção na Educação do Campo. No curso de Educação do Campo da Unipampa-Campus Dom Pedrito, a ciranda infantil foi criada em 2022, a partir da demanda de mães-estudantes que precisam trazer seus filhos para a universidade. Desde então mais de 30 crianças, com idades entre 0 e 12 anos já frequentaram o espaço, sendo atendidas por estudantes voluntárias e, mais recentemente, por bolsistas, que procuram desenvolver atividades de acolhimento, recreação e formação na perspectiva da Educação do Campo. O curso de Educação do Campo está organizando em regime de alternância pedagógica, de forma que durante o Tempo Universidade as aulas são concentradas nos turnos da tarde e da noite, o que não tem permitido manter a ciranda funcionando em tempo integral, dado que as voluntárias e bolsistas nem sempre conseguem compatibilizar os horários de aula com períodos livres para desenvolver atividades na ciranda; contudo quando em funcionamento o espaço é sempre bastante procurado e valorizado, tanto pelas crianças quanto pelas mães. Atualmente, mais de 70% dos estudantes do Curso de Educação do Campo são indígenas, da etnia Kaingang, o que tem trazido novos desafios ao projeto, que vão desde a língua, dado que algumas crianças não possuem fluência em língua portuguesa, até a própria dinâmica de trabalho que se constitui com as crianças e mães, dadas as diferenças culturais. Ao contrário de anos anteriores, em que durante o tempo comunidade se buscou manter o projeto no Campus, neste ano as atividades da ciranda do Tempo Comunidade estão ocorrendo nas comunidades das estudantes que atuam no projeto; na Terra Indígena do Guarita e em Santana do Livramento, onde elas periodicamente reúnem as crianças, destacadamente filhos de estudantes do curso, e realizam atividades formativas na perspectiva da Educação do Campo. O perfil predominante de estudantes da Educação do Campo é de vulnerabilidades múltiplas, incluindo situações de violência, fome e falta de moradia em suas comunidades de origem, de forma que a ciranda e a própria universidade são para alguns mais do que um espaço de formação, mas um espaço de acolhimento e de acesso a políticas que garantem alguma renda, alimentação e moradia, de forma que apesar das contribuições que efetivamente o projeto da ciranda tem conseguido dar a formação das estudantes, suas condições de oferta, assim como das demais políticas de assistência estudantil, estão ainda muito aquém do que seria necessário. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que se reconhece o mérito das iniciativas que tem procurado respaldar o acolhimento infantil na universidade, as quais tem contribuído de maneira efetiva a qualificação dos atendimentos realizados, entende-se a necessidade de trabalhar para que supere a perspectiva de projetos pontuais para assumir o lugar de uma linha robusta e estruturada da política de assistência estudantil, com monitores profissionais e disponibilidade de espaços, recursos e alimentação, pois apenas dessa forma será garantido com equidade o efetivo direito de mães em situação de vulnerabilidades múltiplas à educação.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

A Ciranda Infantil na Perspectiva da Educação do Campo. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 6, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120449. Acesso em: 17 abr. 2026.