Inteligência artificial, tecnologias assistivas e a comunidade surda: a preponderância do VLibras no Brasil

Autores

  • Marilia Scardoelli de Azambuja dos Santos
  • Érico Amaral

Palavras-chave:

Inclusão, Cidadania, Comunicação

Resumo

A comunicação constitui um direito fundamental previsto na Constituição Federal (Brasil, 1988) e representa estrutura essencial para a cidadania plena, especialmente no caso da comunidade surda, que historicamente enfrenta barreiras significativas de acesso à informação, comunicação e à interação social. A Língua Brasileira de Sinais (Libras), reconhecida pela Lei nº 10.436/2002 (Brasil, 2002) e regulamentada pelo Decreto nº 5.626/2005 (Brasil, 2005), configura-se como língua oficial da pessoa surda e possui destaque na identidade linguística e cultural desta comunidade. Contudo, a diferença estrutural entre a Libras e a Língua Portuguesa, associada às dificuldades de grande parte da comunidade surda em dominar a modalidade escrita, dificulta a interação comunicacional em diversos contextos da vida cotidiana, como o contexto social, educacional e profissional. Nesse cenário, tecnologias assistivas baseadas em inteligência artificial ganham espaço como recursos relevantes para ampliar a acessibilidade, promover a inclusão digital e fortalecer o exercício da cidadania. Este estudo teve como objetivo analisar quatro ferramentas que se baseiam em inteligência artificial e são amplamente difundidas no Brasil que contribuem para a acessibilidade comunicacional da pessoa surda: Hand Talk, VLibras, legendagem automática em vídeos do YouTube e tradutor de voz do WhatsApp. A pesquisa adota abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, fundamentada em levantamento teórico-documental e voltada à compreensão das percepções, experiências e sugestões de aprimoramento no uso dessas tecnologias. O referencial teórico inclui autores que tratam da autonomia linguística da Libras (Quadros e Karnopp, 2004), da inclusão plena (Sassaki, 2003; 2007), da centralidade da Libras na educação inclusiva (Mantoan, 2006) e da função das tecnologias assistivas (Bersch, 2017). Pesquisas recentes (Almeida, Campos e Pugliesi, 2024; Sousa e Braz Júnior, 2025) apontam avanços na tradução automática e no uso de avatares digitais, embora persistam desafios técnicos e culturais que demandam maior participação da comunidade surda nos processos de desenvolvimento. O percurso metodológico buscou identificar percepções, experiências e limitações relatadas pela literatura especializada, permitindo compreender de que forma essas tecnologias contribuem ou ainda apresentam barreiras para a comunidade surda. Os resultados apontam que cada ferramenta desempenha funções específicas: o Hand Talk, desenvolvido por iniciativa privada, utiliza avatares 3D para traduzir textos e áudios do português para Libras, destacando-se em contextos educacionais e no uso cotidiano, embora apresente limitações quanto à tradução de conteúdos mais complexos. O VLibras, política pública gratuita do governo federal, é a ferramenta de maior alcance, por estar integrado a sites institucionais, plataformas educacionais, redes sociais e aplicativos móveis, tornando-se a principal referência para a comunidade surda. A legendagem automática do YouTube, baseada em reconhecimento de voz, amplia o acesso a vídeos e transmissões em tempo real para aqueles que têm domínio da leitura em português, mas enfrenta falhas técnicas relacionadas a sotaques, ruídos e velocidade da fala. Por fim, o tradutor de voz do WhatsApp, ao converter áudios em mensagens escritas, facilita a comunicação interpessoal e o cotidiano, ainda que não traduza diretamente para Libras, representando um recurso complementar de grande utilidade devido à popularidade do aplicativo no Brasil. Conclui-se que as tecnologias assistivas mediadas por inteligência artificial são fundamentais para a promoção da acessibilidade comunicacional e para a efetivação da inclusão digital, mas sua eficácia depende do constante aprimoramento técnico e da participação ativa da comunidade surda no processo de desenvolvimento das soluções. Entre os recursos analisados, o VLibras se evidencia como a ferramenta mais utilizada no país, consolidando-se como o principal instrumento de mediação comunicacional e como exemplo de política pública voltada à acessibilidade, ao passo que os demais recursos, ainda que complementares, reforçam a diversidade de possibilidades na promoção da cidadania e da autonomia das pessoas surdas.

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Publicado

2025-10-26

Como Citar

Inteligência artificial, tecnologias assistivas e a comunidade surda: a preponderância do VLibras no Brasil. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 6, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120441. Acesso em: 17 abr. 2026.