Vivência e Cultura Kokama na Universidade Pública

Autores

  • Ana Francisca Arimuya Maia
  • Leticia de Faria Ferreira
  • Silvia Rozane De Souza Avila De Souza

Palavras-chave:

etnia, kokama, educação, intercultural, universidade, pública

Resumo

Sou indígena da etnia kokama, um povo que vive uma realidade bem diferente da maioria dos brasileiros. Nós, kokamas, estamos na Amazônia, espalhados por regiões que atravessam as fronteiras do Brasil, Perú e Colômbia, mas mesmo com essa divisão política entre países, mantemos a identidade, a cultura e o modo de vida. No artigo Os Kokamas transfronteiriços na Amazônia (VIEIRA, José; CASTRO, Pietá, 2022, pg.3) mostra como essa resistência e a busca por reconhecimento têm sido fundamentais para a sobrevivência do povo kokama enquanto grupo étnico indígena. Neste trabalho acadêmico proponho apresentar minha vivência enquanto discente universitária indígena e o quanto essa vivência é permeada pelo meu pertencimento cultural kokama. Para tal, farei o caminho da antropologia autobiográfica, tecendo minha biografia, memórias e experiências, com a apresentação de elementos culturais do povo kokama. A Universidade chegou até mim através da minha prima Kelly nesse ano de 2025, que também cursa em um dos campi da Universidade Federal do Pampa, em Santana do Livramento. Após as informações de minha prima, pesquisei mais sobre a universidade e o curso que queria fazer, sobre os lugares onde havia moradia estudantil, fui planejando tudo e desde o início, vi que seria uma boa oportunidade, que não deveria deixar passar, porém ainda tinha minhas dúvidas se era o que eu realmente queria, pois seria muito difícil ter que mudar tudo de uma hora para outra, e sem contar que não tínhamos condições de pagar passagem de voo para outro estado. Acrescente-se a isso, também tinha medo por ser indígena e como as pessoas ficariam me julgando ou olhando de um jeito diferente, discriminador. Todavia, quando cheguei na universidade vi que era completamente o oposto disso, e que eles valorizavam bastante nossa cultura e etnia. Das coisas que mais me chamou a atenção foi exatamente isso, o jeito como a Universidade nos acolheu e continua nos acolhendo. Desde o dia que cheguei na universidade tenho o apoio de todos, e ainda tenho uma monitora, a Giovana, que me ajudou com absolutamente tudo e qualquer coisa que precisei. Diante disso, mesmo sendo o meu primeiro ano como acadêmica, pondero cada vez a possibilidade de desenvolver pesquisas sobre o povo kokama e a educação intercultural. Historicamente, os kokamas foram considerados invisíveis por muito tempo. Isso por viverem em áreas de fronteiras e estarem em constante deslocamento, muitos não eram reconhecidos oficialmente como indígenas. Além disso, vários foram obrigados a esconderem suas identidades por conta do preconceito e da discriminação. Mas hoje, eles vêm se organizando cada vez mais lutando pelo direito de serem reconhecidos como são, um povo indígena com história, cultura e tradições próprias. Os estudos que venho desenvolvendo revelam a longa trajetória do estado brasileiro em invisibilizar os povos indígenas ao longo dos séculos e não demarcar seus territórios originários. A proposta metodológica que tenho desenvolvido são leituras sobre o povo kokama, sobre a educação intercultural buscando aliar com minha narrativa como kokama. No princípio quando a ideia de universidade chegou, até mim, fiquei assustada, mas ao mesmo tempo deslumbrada. A pequena Atalaia do Norte, de onde sou, encontra-se no interior do Amazonas, próximo ao rio Javari e tem cerca de 15 mil habitantes. Bem, ao optar vir para Jaguarão/ RS, sabia que existiriam desafios e coisas novas a serem concluídas, me emocionei ao deixar minha família, mas sabia que estava buscando o melhor para mim e para eles. Agora, depois de iniciar-me nas leituras sobre a presença indígena na universidade e outras perspectivas que daí se abrem, com autores como Negro Bispo, Cêlia Xakriabá, entendo que fiz a escolha acertada. Agora trata-se de, como neste texto, seguir tramando e narrando as experiências indígenas no meio acadêmico. Minha vivência aqui na universidade está sendo uma grande experiência, estou vivenciando e criando memórias. No começo, tive várias dificuldades de socializar e fazer amizades, porém com acesso a monitoria indígena e apoio de outros programas da universidade já estou bem melhor. Desde junho de 2025 estou inscrita no ADAIQ (Auxílio de Desenvolvimento ao Aluno Indigena e Quilombola). Durante minha bolsa ADAIQ, em conjunto com o MONIQ e o PASP, desenvolvemos alguns temas e formas de apresentação das/os alunas/os indígenas para a universidade, uma das atividades foi a Roda de Conversa da 1ªJornada Integrada que ocorreu no campus da Unipampa Jaguarão, nos fornecendo o auditório e um espaço para contar minhas vivências, como discente indígena do norte do país. Assim, quem assistiu pode ter um pouquinho da nossa cultura. Tendo em vista, essas atividades, como a Roda de Conversa, e outras, como reuniões, me trouxeram mais facilidade de me socializar com os colegas e me adaptar ao novo espaço em que eu estava vivendo. Sempre buscamos por inclusão e finalmente posso dizer que me sinto incluída.

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Publicado

2025-11-03

Como Citar

Vivência e Cultura Kokama na Universidade Pública. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120408. Acesso em: 14 abr. 2026.