Saberes e fazeres ribeirinhos ligados à identidade são-borjense: o caso do construtor de Chalanas
Palavras-chave:
Jornalismo, Identidade, Cultura, Saberes, fazeres, ribeirinhos, Crônicas, CidadeResumo
O presente trabalho tem como propósito abordar os saberes e fazeres que compõem a identidade ribeirinha dos moradores do bairro do Passo, localizado à beira do Rio Uruguai, em São Borja. Para tanto, utilizamos como objeto de análise a crônica jornalística Gibra e suas Chalanas, produzida por integrantes do grupo de pesquisa empírico Jornalismo Humanizador em Crônicas do Cotidiano e publicada na coluna Crônicas da Cidade da Folha de São Borja, em 9 de agosto de 2025. Nesse contexto, compreendemos que o patrimônio cultural imaterial inclui práticas, saberes, modos de vida e expressões que fazem parte da identidade de um grupo social, mesmo que não sejam visíveis ou materialmente preservados. Segundo Muriel Pinto (2022), tratam-se de manifestações que acontecem, ou seja, que se expressam no cotidiano, na oralidade e nas experiências compartilhadas. Na cidade de São Borja, os saberes e fazeres ribeirinhos constituem um importante exemplo desse patrimônio imaterial. Mesmo com as transformações urbanas e sociais, práticas como a construção de embarcações para pesca chamadas de chalanas, a própria pesca artesanal e a vida à beira do rio ainda resistem, (re)afirmando a identidade cultural do local. Essa identidade ribeirinha é resultado de construções sociais baseadas em saberes repassados entre gerações. Como aponta Stuart Hall (1987), as identidades são formadas e transformadas continuamente a partir das representações e práticas culturais em que os sujeitos estão inseridos. No caso de São Borja, a identidade ribeirinha se expressa por meio de conhecimentos herdados, que são reformulados e atualizados diante dos desafios da atualidade. De acordo com Pinto (2016), as expressões artísticas ribeirinhas são fatores que revelam as representações sociais do bairro do Passo. Segundo o pesquisador, as atividades culturais que observou acontecem a partir de elementos ligados ao rio Uruguai, como o artesanato de escama de peixes e a produção de chalanas para o uso na pesca. Ainda nos dias de hoje, encontram-se ribeirinhos que produzem chalanas, como é o caso do pescador Gibrair Nascimento Costa, o Gibra, que aprendeu o ofício de maneira autodidata, há décadas. A história de vida de Gibrair foi prospectada e narrada como parte das atividades do referido projeto de pesquisa empírico, desenvolvido por alunos do curso de Jornalismo da Unipampa sob orientação da Profª Drª Adriana Duval. É um projeto existente e renovado desde 2010, que tem como propósito valorizar e contar as histórias de vidas de personagens da cidade de São Borja. Além disso, busca oportunizar aos alunos de jornalismo uma aproximação junto à comunidade local, o que contribui diretamente na formação desses futuros profissionais. Através de parceria estabelecida com o jornal, as crônicas-reportagens são veiculadas sem custos envolvidos, em página inteira. A história de Gibra apresenta a rotina desse senhor, de maneira descritiva e um tanto poética, com sensibilidade e respeito ao seu universo e ao seu conhecimento, como no trecho a seguir: sentado à beira do fogão a lenha, em sua morada ribeirinha, Gibrair Nascimento Costa, 68 anos, fita, em silêncio, o crepitar do fogo, como se as labaredas lhe aquecessem a memória, até que começa a contar sua história, entre os goles de um mate bem cevado. É possível perceber, na descrição reproduzida, elementos que compõem o cotidiano e a identidade da comunidade ribeirinha, como as casas próximas ao rio, o hábito do uso do fogão a lenha e do chimarrão. Além disso, mais adiante é mencionado que a pesca, aliás, representou para eles [Gibra e esposa] uma importante fonte de alimentação, sustento e esperança, evidenciando o papel da pesca para a subsistência local. A produção também enaltece o sentimento de pertencimento que os ribeirinhos têm em suas comunidades; por meio dos registros fotográficos captados, isso fica evidente, uma vez que ilustram cenas nas quais Gibra aparece, com muito orgulho, em conexão com o rio e com a produção de chalanas e nos bastidores de morada, ao lado da esposa. Dessa forma, concluímos que o projeto Crônicas da Cidade contribui para reafirmar o significativo papel do jornalismo norteado por princípios humanizadores na valorização do patrimônio cultural imaterial da cidade de São Borja. Isso ocorre há 15 anos e em mais de oito centenas de histórias, muitas das quais abordam personagens como Gibra, em cuja essência de sua história está a revelação dos saberes e fazeres ligados ao âmbito da identidade cultural são-borjense. Além disso, o compartilhamento com a comunidade, por intermédio do jornal, propicia o registro e a produção de memória, para a posteridade, fazendo com que narrativas individuais também se conectem com narrativas coletivas, produzindo conteúdos que colocam esse tipo de produção como patrimônio imaterial, ao mesmo tempo em que fortalece o papel social desempenhado pelo jornalismo e a aproximação entre a Unipampa e a comunidade.Downloads
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Publicado
2025-11-03
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Saberes e fazeres ribeirinhos ligados à identidade são-borjense: o caso do construtor de Chalanas. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120402. Acesso em: 14 abr. 2026.