Narrativas da Resistências de Uma Mulher Negra na História: Um Defeito de Cor.
Palavras-chave:
Escravidão, Resistência, EducaçãoResumo
Ao longo da história, a população negra enfrentou inúmeros desafios na luta pela garantia de seus direitos mais básicos, entre eles o direito à vida e à dignidade. O passado revela as crueldades de um sistema que enxergava no povo negro apenas uma oportunidade de lucro e exploração. Foram mais de três séculos de escravidão no Brasil, entre 1530 e 1888, período em que milhões de pessoas foram submetidas a violências, maus-tratos e privações. Esse regime foi sustentado por uma lógica racista que naturalizava a inferiorização da população negra, ultrapassando a dimensão econômica e consolidando-se como uma ideologia social e cultural. Como ressalta Kabengele Munanga, compreender a noção de raça e sua função histórica é fundamental para analisar a escravidão e seus impactos na sociedade brasileira contemporânea. Entretanto, em meio a esse cenário de opressão, emergem narrativas de resistência, coragem e superação que marcam a trajetória do povo negro. Essas histórias ajudam a romper o silenciamento e revelam contribuições essenciais para a construção do Brasil. Com base nessa perspectiva, os licenciandos do curso de Ciências Humanas da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), campus São Borja, desenvolveram um projeto pedagógico durante sua atuação como bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). A iniciativa foi realizada no Colégio Estadual Getúlio Vargas (CEGV), instituição vinculada ao programa, e buscou dialogar com alunos do ensino fundamental e médio sobre a realidade da escravidão e suas consequências, além de estimular o contato com a literatura de autoras negras brasileiras. O projeto interdisciplinar resultou na minissérie audiovisual intitulada Narrativas da Resistência de uma Mulher Negra na História: Um Defeito de Cor. A produção foi desenvolvida em parceria entre os alunos do CEGV, os bolsistas do PIBID e os acadêmicos da UNIPAMPA, sob orientação do Professor Ronaldo Bernardino Colvero (UNIPAMPA) e supervisão da professora Patrícia Roballo (CEGV). A obra tem como inspiração o livro Um Defeito de Cor (Record. 2009), da escritora Ana Maria Gonçalves, que narra a trajetória de Kehinde, uma africana escravizada. A personagem, ao chegar ao Brasil, depara-se com as atrocidades cometidas pelos colonizadores contra os povos africanos, revelando a brutalidade da escravidão no século XIX, a separação de famílias e a constante luta por liberdade e justiça. Autores como Seymour Drescher, em perspectiva internacional, e Adelmir Fiabani, no contexto brasileiro, reforçam que a escravidão possuía uma dimensão estrutural que moldou não apenas a economia, mas também a organização social. Já obras como Brasil: Uma Biografia, de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, demonstram como o período escravista influenciou profundamente a formação política e cultural do país. Munanga acrescenta que a noção quase eugênica de raça, consolidada no século XIX, foi central para justificar e perpetuar esse sistema. Na execução do projeto, os licenciandos dividiram-se em duas frentes principais: a leitura e análise crítica da obra de Ana Maria Gonçalves e a elaboração de um roteiro em seis episódios. Os alunos, por sua vez, participaram de audições para interpretar os personagens, vivenciando ativamente a recriação da narrativa. Esse processo não apenas fortaleceu a compreensão histórica, mas também estimulou a empatia, ao conectar a ficção literária aos fatos reais. O resultado foi uma aprendizagem mais dinâmica e significativa, que uniu literatura, história e artes cênicas em uma experiência transformadora. Essa abordagem mostrou-se relevante por estimular o pensamento crítico, a reflexão e a capacidade dos alunos de relacionar o passado escravista com as desigualdades ainda presentes no Brasil. Ao compreender as raízes do racismo estrutural, os estudantes puderam ampliar sua consciência cidadã e cultural, reconhecendo a importância da resistência negra como elemento central na construção de uma sociedade mais justa. O projeto também teve como propósito combater visões reducionistas que retratam o povo negro apenas como vítima. Ao contrário, buscou valorizar sua resistência, força e contribuição para a formação da identidade brasileira. Espera-se que, por meio dessa iniciativa, os alunos tenham desenvolvido maior sensibilidade diante das questões raciais, sociais e históricas, tornando-se agentes de transformação em seus próprios contextos. A parceria entre a universidade e a escola demonstrou, ainda, o potencial do espaço escolar como lugar de produção de conhecimento e de fortalecimento da cidadania. Com a minissérie, foi possível não apenas ensinar conteúdos históricos, mas também inspirar reflexões e estimular o protagonismo estudantil. Assim, o projeto reafirma a importância de narrativas que celebram a resiliência e a dignidade do povo negro, convidando todos a refletirem sobre a história para que se construa um futuro mais justo e igualitário.Downloads
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Publicado
2025-11-03
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Narrativas da Resistências de Uma Mulher Negra na História: Um Defeito de Cor. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120383. Acesso em: 14 abr. 2026.