Ninho

Autores

  • Yrlla Soares

Palavras-chave:

Ninho, guerra, lar, futuro, nação

Resumo

Minha criação artística nasce da necessidade de dar forma a um silêncio coletivo que insiste em atravessar fronteiras: o silêncio imposto pela guerra. Trata-se de um ninho tridimensional de pássaros característicos da Palestina, construído não apenas como objeto escultórico, mas como um espaço simbólico, um território íntimo e ao mesmo tempo universal. O ninho, em sua essência, remete ao lar, à proteção, ao abrigo primordial que acolhe a vida em sua fase mais frágil. É um arquétipo de cuidado, continuidade e esperança. No entanto, neste trabalho, ele é atravessado por uma fratura, uma ruptura visível e dolorosa. Dentro do ninho repousam ovos quebrados símbolos da vida interrompida, da esperança violentada e do futuro que se vê abruptamente desfeito pelo peso da guerra. A escolha por pássaros palestinos não é casual. Eles carregam, em sua própria materialidade simbólica, a identidade de uma terra marcada por histórias de resistência, deslocamento e sobrevivência. Essas aves, que naturalmente constroem ninhos como espaços de continuidade da vida, aqui são convocadas a representar a coletividade de um povo. O ninho, portanto, deixa de ser apenas um gesto natural da espécie e se torna metáfora de um lar nacional, de um território reivindicado, de uma memória coletiva em disputa. O gesto de sua construção em 3D é também uma tentativa de permanência, de dar corpo material àquilo que, na realidade concreta, tantas vezes é negado ou destruído. Os ovos, elementos centrais da obra, aparecem fragmentados. Sua integridade rompida aponta para a impossibilidade de neutralidade diante da violência. Não há como olhar para o interior do ninho sem perceber a ausência de vida em potência, a interrupção abrupta de um ciclo que deveria florescer. Ao mesmo tempo, esses ovos quebrados evocam a vulnerabilidade do humano, a fragilidade das existências que, no cenário da guerra, são esmagadas antes mesmo de se desenvolverem plenamente. Assim, a obra não fala apenas da Palestina como território específico, mas da condição humana universal diante do conflito: quando a guerra se instala, ela atinge, em primeiro lugar, o que há de mais frágil, o que deveria ser protegido. A tridimensionalidade da peça também tem um papel fundamental. Não se trata de uma imagem bidimensional a ser contemplada à distância, mas de um objeto que ocupa espaço, que convida o espectador a circular, a se aproximar, a se debruçar sobre sua interioridade. Essa presença física do ninho obriga a um confronto sensível: a obra não permite que o espectador permaneça neutro ou distante, mas o coloca diante do choque entre o gesto de proteção e o resultado da destruição. O vazio do ninho se torna o vazio do olhar daquele que o contempla. Há, nesse trabalho, uma tensão entre delicadeza e brutalidade. O ninho, construído com cuidado e precisão, remete ao gesto amoroso dos pássaros e, por extensão, ao gesto humano de construção de lares, de famílias, de comunidades. Já os ovos quebrados introduzem uma violência visual que rompe com a suavidade inicial. Essa ambiguidade é proposital: é na justaposição entre ternura e brutalidade que a obra encontra sua força, denunciando como a guerra invade os espaços mais íntimos, desfazendo lares, interrompendo futuros e esfacelando sonhos coletivos. Ao criar esse ninho, não busco apenas representar a guerra, mas problematizar seus efeitos silenciosos, aqueles que não aparecem em números ou estatísticas, mas que se manifestam no cotidiano interrompido, nas histórias que não chegaram a ser contadas. O ninho vazio e ferido é também um memorial silencioso, um espaço de luto compartilhado, que chama a atenção para o que se perde quando a violência substitui a convivência. Ele se torna testemunha de uma ausência irreparável. Por outro lado, há uma dimensão de resistência presente na própria existência da obra. Criar um ninho, ainda que habitado por ovos quebrados, é insistir na possibilidade de construir, de dar forma, de não se resignar ao vazio. É lembrar que, mesmo em meio à destruição, existe a potência da memória, da denúncia e da expressão estética. O ninho se converte, assim, em uma afirmação da vida frente ao apagamento, um gesto de resistência simbólica contra o esquecimento e contra a naturalização da violência. Minha intenção é que o espectador, ao entrar em contato com a obra, seja atravessado por essa tensão: que sinta tanto a delicadeza do gesto de criação quanto a dor da destruição. Que perceba no ninho uma metáfora ampliada da Palestina, mas também de todos os lugares em que a guerra se instala e destrói os vínculos mais essenciais. E que, a partir desse contato, surja não apenas uma reflexão sobre o presente, mas um chamado ético à preservação da vida, da memória e da esperança.

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Publicado

2025-11-03

Como Citar

Ninho. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 17, 2025. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/120375. Acesso em: 14 abr. 2026.