O EU-LÍRICO FEMININO NA COMPOSIÇÃO NATIVISTA: REFLEXÕES SOBRE GÊNERO E IDENTIDADE
Palavras-chave:
Música, nativista, mulher, gaúcha, estudos, gêneroResumo
Este estudo é um recorte de Trabalho de Conclusão de Curso do curso de Música-Licenciatura da Universidade Federal de Santa Maria, com foco na relação entre a mulher e a música. Neste caso, mais precisamente, com a música nativista do Rio Grande do Sul. Acredita-se que obras artísticas possuem importante potencial para divulgação de ideias e construção de identidades, podendo potencializar e mesmo transformar representações construídas e por vezes reforçadas por meio de instrumentos de comunicação, como a música, poesia e outras artes. Com isso, o recorte destaca a representação do "eu-lírico" feminino em obras compostas e/ou interpretadas por mulheres atuantes nesse estilo musical, que é um campo cultural enraizado em tradições que frequentemente perpetuam estereótipos de gênero. A música nativista, que emergiu como uma forma de reafirmação da identidade regional gaúcha, é reconhecida pela maciça participação masculina, tanto na performance quanto na composição. Dentro desse contexto, as mulheres compositoras, instrumentistas e intérpretes relatam o desafio de afirmar suas vozes em um ambiente que estereotipa sua participação, possui pouca representatividade e limita suas expressões criativas. A pesquisa parte do pressuposto de que as canções não são meramente expressões artísticas, mas também veículos de construção social e política. Através de suas obras, as mulheres atuantes nesse cenário têm o potencial de desafiar as normas de gênero e expandir o espaço de atuação da mulher. No entanto, a incorporação de um "eu-lírico" feminino que reflita de forma autêntica as experiências e os desafios das mulheres gaúchas ainda é um processo entabulado. Metodologicamente, o estudo adotou uma abordagem qualitativa, centrada em entrevistas semiestruturadas com sete mulheres que possuem uma trajetória significativa no meio nativista. As entrevistas permitiram compreender como as participantes percebem suas criações e o impacto de suas obras, além de investigar como ocorre o envolvimento da mulher nesse contexto, de que maneira desperta seu interesse por este estilo musical, bem como analisar a forma que se dá seu acolhimento, entrosamento e participação neste ambiente. A análise dos dados seguiu os princípios da Análise de Conteúdo, conforme delineado por Laurence Bardin, o que permitiu identificar padrões recorrentes e divergentes nas narrativas das entrevistadas, além de temas centrais como a representação da feminilidade, os estereótipos de gênero e a resistência cultural encontrada nos festivais nativistas. Os resultados do estudo revelam uma evolução gradual na forma como essas compositoras abordam o "eu-lírico" feminino em suas obras. Inicialmente influenciadas por modelos masculinos, muitas dessas mulheres começaram a desenvolver uma voz própria e autêntica, que busca refletir suas experiências pessoais e coletivas como mulheres dentro do contexto gaúcho. No entanto, esse processo de transição ocorre de maneira gradual. As entrevistas constatam que, embora bem recebidas no meio, as participantes relaram situações de machismo sofridas de forma velada. Além disso, reconhecem também uma autocensura resultante das pressões sociais e expectativas que circundam o papel da mulher na música nativista. Uma das entrevistadas relata que, na falta de referências de outras mulheres nos festivais, compunha seus versos direcionados à masculinidade e personagens masculinos. O estudo conclui que, embora existam avanços na aceitação de composições que retratam um "eu-lírico" feminino, ainda existe uma significativa resistência cultural à plena expressão da feminilidade e autonomia nas letras e composições dessas artistas. As participantes destacam a importância de um maior reconhecimento e valorização de suas obras dentro do meio nativista, além de uma necessidade de abrir espaço para uma maior diversidade de vozes femininas, no sentido de números de compositoras, intérpretes e instrumentistas. De todo apurado, o estudo sugere que, para que a música nativista possa evoluir e se tornar mais inclusiva, é necessário que haja uma reavaliação das práticas culturais e a importância de questionar esta realidade e os preconceitos nela gerados de forma direta, o que acaba por contribuir com a exclusão velada das mulheres do meio musical nativista gaúcho.Downloads
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Publicado
2024-10-16
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
O EU-LÍRICO FEMININO NA COMPOSIÇÃO NATIVISTA: REFLEXÕES SOBRE GÊNERO E IDENTIDADE. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 5, n. 16, 2024. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/118929. Acesso em: 16 abr. 2026.