IMPORTÂNCIA DA ULTRASSONOGRAFIA NO DIAGNÓSTICO DE MÚLTIPLOS SHUNTS PORTOSSISTÊMICOS EM UM CÃO JOVEM
Palavras-chave:
Ascite, shunt, microhepatiaResumo
O shunt portossistêmico (SPS), denominado também como desvio portossistêmico (DPS), corresponde a uma anomalia vascular que permite a comunicação errônea entre a circulação sanguínea portal e a circulação sistêmica. Os desvios portossistêmicos possuem etiologia congênita ou adquirida, podem ser únicos ou múltiplos, com localização intra-hepática ou extra-hepática. O shunt portossistêmico congênito apresenta maior incidência, sendo relatado majoritariamente em cães de raças puras, com o desenvolvimento dos sinais clínicos até o primeiro ano de vida. As manifestações clínicas frequentemente estão associadas a disfunções do sistema nervoso central (SNC), sistema gastrointestinal e sistema urinário. O presente resumo tem como objetivo relatar um caso de shunt portossistêmico de origem congênita em um cão com manifestação clínica atípica. Foi atendido no Hospital Universitário Veterinário da Universidade Federal do Pampa, campus Uruguaiana, um canino, fêmea, sem raça definida, com sete meses de idade e 9 kg de peso corporal, com queixa de aumento de volume abdominal com evolução há seis dias e queixa de respiração ofegante. No exame físico constatou-se um acentuado abaulamento abdominal associado a taquicardia, a partir disso, foi solicitado o exame ultrassonográfico com o intuito de investigar o aumento de volume abdominal. Durante a execução do exame ultrassonográfico, foi constatado um acentuado acúmulo de líquido livre nos quatro quadrantes abdominais. O que dificultou uma avaliação ultrassonográfica adequada das demais estruturas da cavidade abdominal. Optou-se pela realização de abdominocentese. O conteúdo drenado consistiu em um fluido translúcido e de viscosidade aquosa, cuja análise clínica não demonstrou alterações dignas de nota. Após drenagem do abdome, o exame ultrassonográfico foi repetido, onde foi possível visibilizar a vesícula urinária repleta por conteúdo anecogênico, associada à grande volume de sedimento e presença de material ecogênico aderido a parede, sugestivo de coágulo. Não foi possível identificação do parênquima hepático pelo acesso subxifóide e subcostal, sendo identificado com dificuldade em janela intercostal, onde evidenciou-se uma redução significativa no tamanho do parênquima, associado a irregularidade da superfície e aumento de ecogenicidade, compatível com um quadro de microhepatia ou cirrose. Observou-se também um aumento do calibre da veia cava caudal em região intra hepática, associada à presença de fluxo turbilhonado ao acionamento Doppler em uma grande extensão da veia cava, localizado caudal ao parênquima hepático, achados compatíveis com shunt portossistêmico. Não foi possível a viabilização de comunicações vasculares entre veia porta e cava caudal que confirmassem a presença do shunt extra hepático. No que se refere aos exames hematológicos e bioquímicos, destaca-se a ocorrência de hipoproteinemia, hipocolesterolemia e um discreto aumento das enzimas hepáticas (fosfatase alcalina, alanina aminotransferase e gama glutamiltransferase). Para complementação do caso, uma amostra de urina obtida através de cistocentese foi encaminhada para urinálise, onde evidenciou-se a presença moderada de sangue oculto associada a cristalúria intensa de biurato de amônia. Apesar de não ter sido visibilizado a localização do desvio através da ultrassonografia, que pode apresentar limitações devido ao quadro de líquido livre abdominal, os achados de imagem associados aos achados laboratoriais corroboram a hipótese de shunt portossistêmico. A conduta adotada para confirmação diagnóstica e tratamento foi o procedimento cirúrgico, sendo o animal submetido a laparotomia exploratória. No transoperatório foi constatada a presença de múltiplas comunicações vasculares anormais que acessavam a veia cava caudal, partindo da veia porta, veia gástrica esquerda e veia esplênica, fato este que impossibilitou a resolução cirúrgica dessas anomalias, devido a intensa quantidade de afluentes anormais. A paciente recuperou-se satisfatoriamente do procedimento e foi liberada, sob recomendação de retornar para acompanhamento clínico, entretanto, o caso não teve prosseguimento. É possível que a provável origem do shunt seja congênita, considerando a faixa etária da paciente. Ressalta-se ainda que o quadro de ascite como principal sinal clínico em casos de shunt portossistêmico é descrito como raro, estando associado principalmente a casos avançados e graves. A presença de cristais de biurato de amônia indica uma situação de hiperamonemia, que antecede a ocorrência de urolitíase, comumente encontrada em casos de shunt portossistêmico, não sendo evidenciado nesse caso devido ao tempo insuficiente para a sua formação. Em síntese, a avaliação ultrassonográfica foi imprescindível para o direcionamento clínico do caso, pois somente devido aos achados sonográficos visibilizados a suspeita foi direcionada para o quadro de shunt portossistêmico.Downloads
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Publicado
2024-10-16
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
IMPORTÂNCIA DA ULTRASSONOGRAFIA NO DIAGNÓSTICO DE MÚLTIPLOS SHUNTS PORTOSSISTÊMICOS EM UM CÃO JOVEM. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 16, 2024. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/117623. Acesso em: 16 abr. 2026.