O USO DE PLANTAS MEDICINAIS COMO MANUTENÇÃO DA SAÚDE E CULTURA DOS POVOS TRADICIONAIS
Palavras-chave:
Plantas, medicinais, resistência, sobrevivência, saúde, cultura, saberes, ancestraisResumo
Este trabalho é um desdobramento do projeto A grande saúde dos povos, que tem como objetivo investigar e entender o uso de plantas medicinais por comunidades tradicionais como um meio fundamental de sobrevivência e resistência. Busca-se compreender como o conhecimento tradicional sobre plantas medicinais é transmitido, mantido e aplicado por essas comunidades, capacitando-as a enfrentar desafios de saúde e ambientais. Além de os povos tradicionais usarem tal prática como meio de manter sua cultura, modo de vida e garantia de sobrevivência, é possível afirmar que estabelecem relações de comunidade com vegetais e animais não-humanos e outros seres vivos, configurando o que chamamos de comunidades multiespécie (Peçanha & Pinto, 2021). Ao longo da história, civilizações antigas, indígenas, quilombolas e a população negra utilizaram plantas medicinais para tratar uma ampla variedade de condições de saúde (Firmo et al., 2012). Por exemplo, desde o processo escravocrata que durou mais de quatrocentos anos no Brasil, o conhecimento sobre plantas medicinais desempenhou um papel vital na sobrevivência das comunidades, permitindo-lhes enfrentar doenças, ferimentos e outros desafios de saúde, uma vez que a população escravizada não possuía acesso a atendimento médico, medicamentos, exames e qualquer outro tipo de direito relacionado à saúde. O uso de plantas medicinais por comunidades tradicionais é uma prática ancestral que desempenha um papel vital na sobrevivência e resistência dessas populações. Essas comunidades, muitas vezes isoladas em ambientes naturais, com acesso à saúde precária e negação de direitos básicos, desenvolveram um profundo conhecimento das propriedades medicinais das plantas locais ao longo de gerações. Esse aprendizado não apenas contribui para a saúde das comunidades, mas também fortalece sua resiliência em face de adversidades. A transmissão do conhecimento sobre plantas medicinais muitas vezes ocorre oralmente, de anciãos para os mais jovens. Tais práticas estão profundamente enraizadas nas culturas locais e representam uma parte importante da herança cultural de muitas comunidades, como acontece na comunidade quilombola de Maria Joaquina, localizada no interior do Rio de Janeiro. As plantas medicinais oferecem uma ampla gama de benefícios à saúde, desde propriedades anti-inflamatórias até propriedades antimicrobianas. Elas têm sido usadas para tratar desde resfriados comuns até condições mais graves, como cálculo renal e diabetes. O uso de eucalipto, por exemplo, é usado para tratar problemas respiratórios, como resfriados e congestão nasal. A hortelã-pimenta é utilizada para aliviar dores de estômago e náuseas. A gengibre, conhecida por suas propriedades anti-inflamatórias e analgésicas, e o Aloe vera, usado para tratar queimaduras e problemas de pele. Mais do que meros recursos naturais, as plantas medicinais acompanham as comunidades e constituem sua socialidade através das gerações. Assim, quando uma espécie de planta se extingue, desaparece ou se torna escassa em um território tradicional, sua ausência corresponde ao fim de relações muito significativas para o grupo em questão: novas estratégias passam a ter que ser elaboradas para dar continuidade aos fluxos de vida que aquela relação interespecífica sustentava. A utilização de plantas para fins medicinais, por exemplo, é uma prática que tem crescido entre a população brasileira, que encontra nas plantas um recurso alternativo para o tratamento de diversos problemas de saúde, muitas vezes em uma tentativa de evitar os efeitos colaterais de medicamentos prescritos por médicos (Dulley, 2003). No entanto, a comercialização das plantas, e todo aparato técnico-científico que a sustenta, representa uma ameaça às comunidades, que têm muitos de seus costumes construídos a partir do seu cultivo, e que pode se refletir no desequilíbrio ambiental do território e na apropriação dos saberes tradicionais desses povos (Deffacci & Brunetta, 2014). Portanto, além de sua importância para a saúde humana, o uso sustentável de plantas medicinais também está ligado à resistência cultural e a preservação dos territórios indígenas e quilombolas. Os resultados desta pesquisa, ainda em andamento, destacam a importância inestimável das plantas medicinais na sobrevivência e resistência de comunidades em todo o mundo. O uso contínuo de plantas medicinais como recurso valioso deve ser valorizado e preservado, tanto pelo seu potencial terapêutico quanto pelo seu significado cultural e ecológico. É um testemunho da resiliência, adaptabilidade e sabedoria acumulada ao longo de séculos.Downloads
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Publicado
2023-12-18
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
O USO DE PLANTAS MEDICINAIS COMO MANUTENÇÃO DA SAÚDE E CULTURA DOS POVOS TRADICIONAIS. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 2, n. 15, 2023. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/116534. Acesso em: 17 abr. 2026.