Em que voz eu canto? Um relato de experiência sobre os debates de gênero em um grupo de práticas vocais coletivas
Palavras-chave:
práticas, vocais, coletivas, Questões, Gênero, DecolonialidadeResumo
O presente trabalho relata alguns caminhos reflexivos sobre questões de gênero que o grupo de práticas vocais coletivas Baque do Pampa, programa de extensão do Curso de Música - Licenciatura na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), tem movido em seus colaboradores e membros. Sou bolsista do programa e trago comigo contribuições enquanto mulher negra e LGBT; assim, as questões de gênero que me atravessam vão estar presentes em todos os espaços em que eu estiver inserida. O Baque do Pampa é um programa que se propõe a debates importantes sobre as estruturas historicamente eurocêntricas dos grupos de práticas vocais e corais, expressando seus posicionamentos através de suas performances, repertório e estratégias de condução dos ensaios. O projeto, atualmente programa, nasceu com duas docentes do curso de Licenciatura em Música, já provocando as estruturas do canto coral, sem testes para entrar no grupo, aberto à comunidade externa da UNIPAMPA e com um repertório popular e de sociedades tradicionais. A partir desse momento, parecem ter sido criadas novas possibilidades para ações performáticas, proporcionando um espaço de interação sócio-musical, com participantes de diferentes áreas do conhecimento, não necessariamente músicos. Por ser um ambiente amplo e que abre espaço para debates atuais, também é composto por pessoas diversas, e foi assim que a partir de membros que não se identificam com os padrões binários de gênero, emergiu o debate sobre os termos e como repensar as estruturas pré-dispostas que expressam binariedade no discurso do programa. É muito comum nas estruturas de canto coral a divisão feita por Vozes masculinas (Tenor, Barítono e Baixo) e Vozes Femininas (Soprano, Mezzo e Contralto), o que não supre a diversidade de vozes que existem, limitando as possibilidades, além de excluir todes que não estão inseridos nessas definições de gênero. Um grande exemplo de como essas definições de gênero não suprem as especificidades é o fato de que já houve cantores no grupo que quebravam esses padrões, como um cantor socialmente identificado como homem, que cantava junto com as sopranos (voz mais aguda dentro das vozes femininas), mesmo que esta pessoa se identifique como uma pessoa não-binária. Também, um corpo não-binário que performa masculidade e cantava com as contraltos (voz mais grave entre as vozes definidas como femininas). Pensando nos corpos diversos que podem fazer parte do grupo, inicialmente, mudamos algumas terminologias que são comumente utilizadas no canto coral, como vozes masculinas e vozes femininas, mesmo que tenhamos continuado usar divisões como soprano, mezzo, contralto, tenor, barítono e baixo. Entendemos que as transformações se dão processualmente, mas enxergamos a necessidade de troca dos termos para evitar que outras pessoas sejam expostas a divisões de gênero que não falam sobre a diversidade que encontramos na sociedade. Em seguida foi construído um espaço de debate sobre essa problemática, que acontece durante o período de reuniões do grupo que organiza o programa, onde debatemos textos e expomos nossas opiniões. Sendo assim, este relato é baseado em debates constantes e pesquisas bibliográficas, construindo um espaço de formação entre os/as colaboradores/as do Baque. Colaboradores/as estes que são discentes de um curso de Licenciatura em Música e, como futuros educadores, irão atuar em ambientes escolares, local em que estes debates irão surgir de maneira transversal em todos os âmbitos da educação, não apenas na área das linguagens. Debater questões de gênero nas práticas vocais coletivas é uma problemática contemporânea, porém necessária, que está dentro do campo da decolonialidade. A partir destas reuniões e debates ficou evidente a necessidade de ampliarmos nossas ações para além do discurso, ou seja, não só na mudança dos termos que utilizamos. Afinal, os espaços de estudos em música são conhecidos por seu conservadorismo em práticas e discursos geralmente vinculados a perspectivas eurocêntricas. Levando debates que provocam as estruturas de como se deve fazer música, provocamos um ato de potencial revolução, que demonstra que nossos fazeres musicais são diversos e todos válidos. Precisamos de ações práticas que transformem e tornem o ambiente que construímos acolhedor e inclusivo, por acreditar que debater questões de gênero em ambientes como a universidade é construir ciência, ampliar o discurso e registrar historicamente as transformações que causamos nos espaços acadêmicos.Downloads
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Publicado
2023-12-18
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
Em que voz eu canto? Um relato de experiência sobre os debates de gênero em um grupo de práticas vocais coletivas. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 2, n. 15, 2023. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/116415. Acesso em: 17 abr. 2026.