O CAMINHO DE PREPARAÇÃO PARA O TRABALHO COM MUSICALIDADES INDÍGENAS EM SALA DE AULA

Autores

  • Maria Paula da Rosa Gonçalves
  • Luana Zambiazzi dos Santos

Palavras-chave:

Musicalidades, indígenas, educação, infantil, formação, professores

Resumo

O seguinte trabalho busca apresentar os processos de preparação de uma licencianda em música para abordar o universo musical indígena com crianças. Esta proposta surge dentro das aulas de Músicas do e no Brasil I, ministradas no primeiro semestre de 2023. Este componente traz uma ligação com a Etnomusicologia, campo da Música que entende como fundamental a conexão entre os fundamentos sonoro-musicais e os sociais/cosmológicos de cada contexto cultural. Para entender essas conexões foi necessário realizar uma aproximação com a área, a fim de entender quais são as perspectivas que esta tem sobre a música, eliminando algumas visões eurocêntricas através das trocas de experiências e debates que ocorriam nas aulas. Aqui, entende-se como importante apresentar o caminho reflexivo trilhado como discente de uma licenciatura em música, sintonizado com a importância de um estudo aprofundado para introduzir a temática indígena na educação básica. No contexto do componente curricular começamos a debater o lugar que a música ocupava dentro das missões jesuíticas, observando que esta não fazia parte de seus regulamentos oficiais, adquirindo um aspecto socializador ao tentar criar ligações entre os colonizadores e os indígenas, pois se via que os povos originários do Brasil já faziam música antes da chegada dos padres. Embora tenha servido como um intermédio entre os povos, a música dos indígenas não foi aprofundada pelos jesuítas, já que eles não se preocuparam em observar as músicas realizadas por eles. Os povos indígenas, por sua vez, visualizam que a música tem um papel muito maior do que a socialização. Neste sentido, fomos apresentados a diversas formas de se fazer música em diferentes comunidades indígenas. Apesar da enorme pluralidade de modos de se viver dentro das diversas comunidades indígenas, chegamos à conclusão de que em todas o papel da música não se limitava aquele utilizado em suas expressões religiosas, mas sim com a sua própria maneira de viver e ser um indígena. Trago aqui o exemplo dos Mbya-Guarani, que veem a música como um presente divino, oriunda do mundo dos sonhos, o onírico. Neste sentido, aprendemos que os povos Mbya-Guarani acreditam que as músicas por eles entoadas já existem neste outro plano da realidade, fazendo com que aquele que a recebe não possa aderir para ele sua autoria. Estas canções apresentam cunho religioso, estando inseridas em contextos de rituais xamanísticos, tendo deidades como Nhamandú como o protagonista, por exemplo. Contudo, não podemos pensar nestas sonoridades musicais apenas como parte de sua experiência espiritual e periférica, mas, sim, de toda vivência nas comunidades Mbya-Guarani. Assim, durante as aulas refletimos sobre nosso papel como professores, e neste sentido analisamos uma plataforma que surge como uma alternativa para o trabalho na escola, sendo uma ferramenta que introduz ao meio indígena e traz algumas atividades didáticas para serem trabalhadas em sala de aula, sendo um auxílio para os questionamentos que eu e meus colegas possuímos a como tratar o tema em aula. O resultado desse caminho no componente curricular foi a criação de uma unidade didática que visava desconstruir um estereótipo criado sobre os indígenas, sintonizando-se com a lei 11.645/08, por meio de uma proposta pedagógico-musical. Neste caso, essa mudança seria feita através de uma aproximação das crianças com o mundo sonoro-musical indígena. Busquei focar no nível da educação infantil, pois por menores que os alunos sejam, estes não podem ficar alheios a tais debates, de forma que nessa unidade didática foi buscado apresentá-los a este universo. A proposta consistiu em quatro aulas que teriam como tema A narrativa Os Bichos de Palop, do povo Paiter Suruí e suas contribuições musicais. As aulas contariam com atividades de apreciação musical, criação de instrumentos de materiais reciclados, percussão corporal, notação musical e sonorização de histórias, que seriam aproveitados em duas músicas deste povo indígena e fariam parte do repertório da turma escolhida. Também é importante ressaltar que esta unidade ainda não foi realizada com alunos, pois este será o próximo passo do trabalho. Ainda assim é pertinente entendermos o caminho que foi trilhado para se chegar a este resultado. Assim, concluo que, antes de se trabalhar com comunidades indígenas na escola, se faz necessário um preparo do professor através de estudos e discussões, para que os/as alunos/as se sintam seguros para fazer as atividades propostas e também adentrar neste(s) universo(s). No campo da música esses debates parecem ser interessantes de se refletir a partir do campo da etnomusicologia, a fim de pensarmos nessas realidades musicais não com uma perspectiva meramente estética, mas com a visão de que estas representam o modo de viver e ser indigena.

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Publicado

2023-12-18

Como Citar

O CAMINHO DE PREPARAÇÃO PARA O TRABALHO COM MUSICALIDADES INDÍGENAS EM SALA DE AULA. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 15, 2023. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/116307. Acesso em: 21 abr. 2026.