A RECIPROCIDADE E OS/AS CATADORES(AS) LIGADOS AO MOVIMENTO NACIONAL DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS (MNCR)
Palavras-chave:
Economia, Solidária, Movimento, Nacional, dos, Catadores, Materiais, Recicláveis, Cultura, Social, ReciclagemResumo
A análise teórica da dimensão da reciprocidade presente no projeto de transformação social entendida como a questão social da reciclagem defendida pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) é discutida amplamente no trabalho de dois pesquisadores: Alexandro Cardoso e Cristiano Oliveira. Como intelectuais engajados, os pesquisadores trazem para a discussão política as questões sociais que envolvem o tema da reciclagem, interpelando tanto o Estado através das políticas públicas, quantos os costumes individualistas enraizados na nossa sociedade. Com esse intuito, discutem um processo de transformação social de caráter radical, tal como é a defesa da Reforma Agrária Popular pelo MST, pois, a questão social da reciclagem é um projeto político de transformação estrutural da economia brasileira tendo em vista a constituição de uma cultura solidária. Diante disso, o presente trabalho trata-se de um estudo qualitativo que busca analisar o lugar que a reciprocidade ocupa na teoria da cultura social da reciclagem. Ao focar sua análise no circuito Kula, Malinowski (2018), descreve um sistema de trocas de objetos como braceletes e colares sem utilidade prática, mas que para o autor o elemento distintivo desta instituição é o princípio da reciprocidade visto sua importância na coesão social das tribos das ilhas da Nova Guiné. Partindo desta questão Marcel Mauss (2003), investiga por que os presentes dados demandam o recebimento de outros presentes. Para ele, a reciprocidade é um princípio que afirma organizar a estrutura do dar, receber e retribuir", denominado como um sistema de Dádiva. A estrutura das trocas evidencia a existência de um fato social total, pois envolve todas as dimensões de uma dada sociabilidade, quais sejam: social, histórica e fisiopsicológica. Ainda que a troca de artefatos se dê de maneira desinteressada ela é expressão do mana, ou seja, a parte do espírito de quem dá algo a outro, sua honra, seu prestígio. Assim, receber significa também aceitar a parte do espírito de quem deu. Desse modo, o ato de receber o mana de alguém resulta na obrigação de retribuir. Pois, conservar equivale a quebrar esse vínculo espiritual, resultando na perda do mana dado (MAUSS, M., 2003). Para Cristiano Oliveira (2016), o MNCR é o sujeito da questão social da reciclagem, visto que enquanto afirmam a existência dessa categoria são, reflexivamente, constituídos por ela. O pressuposto do imaginário radical e instituinte do MNCR parte do entendimento de que todos os membros de uma dada sociedade geram resíduos sólidos, logo, a responsabilidade de destinação ambiental adequada é social. Para aproveitar estrategicamente essa oportunidade é preciso que os catadores articulem organicamente uma rede de interlocutores militantes que vincule a responsabilidade ambiental com a destinação dos resíduos aos objetivos econômicos e políticos do movimento, mobilizando os sentimentos das pessoas que não estão envolvidas diretamente nessa situação. Focando nos princípios econômicos solidários, Alexandro Cardoso, catador, antropólogo e uma das lideranças do MNCR, toma o olhar como elemento antropológico, analisando sua função na teoria da Cultura Social da Reciclagem. Para o autor, se a discussão dos elementos culturais da reciclagem não tomar como foco a valorização do catador, a diferença social percebida entre gerador/catador se manterá reproduzindo os níveis abissais da desigualdade econômica. Logo, a coleta seletiva tendo por protagonistas as empresas privadas não resultaria na constituição solidária de uma cultura social da reciclagem. Diante desses objetivos, Cardoso afirma que o ponto central é o entendimento da ligação solidária entre os geradores e as/os catadoras/es, mediada pelos resíduos. Primeiramente, os geradores encontram-se com as/os catadoras/es, reconhecendo ambos o valor de seu trabalho. Após, as/os catadoras/es encaminham os resíduos para um processo produtor de novas utilidades econômicas. Com isso, geram-se rendas e postos de trabalho. Este processo contribui também para a proteção da natureza, ficando evidente a relação dos princípios morais da ação do MNCR, presentes na Cultura Social da Reciclagem, racionalmente articulados conforme os fundamentos da Economia Solidária. Tomando a discussão da teoria das trocas presente na obra de Marcel Mauss, observa-se a relação desta com a lógica da Cultura Social da Reciclagem proposta pelo MNCR. Visto se tratar de uma lógica de sociabilidade baseada na estrutura da dádiva, pois as pessoas ao se interpelarem, reconhecem-se como agentes, com objetivos morais compartilhados. Logo, a troca gera ganhos para os dois lados e também produz algo maior como o sentimento de pertencimento à uma cultura solidária. Por meio da troca, cria-se redes na forma de alianças.Downloads
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Publicado
2023-12-18
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
A RECIPROCIDADE E OS/AS CATADORES(AS) LIGADOS AO MOVIMENTO NACIONAL DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS (MNCR). Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 15, 2023. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/116269. Acesso em: 22 abr. 2026.