O MANICÔMIO ESTÁ EM NÓS? RELATO DE EXPERIÊNCIA DE ACADÊMICAS DE ENFERMAGEM
Palavras-chave:
Saúde, Mental, Reforma, Psiquiátrica, Rede, Atenção, PsicossocialResumo
A área de saúde mental apresenta profundas mudanças no que diz respeito ao olhar sobre a loucura ao longo do tempo. Anteriormente, ela era vista como um problema individual a ser asilado e tratado em instituições manicomiais, as quais adotavam práticas excludentes e desumanas. A Reforma Psiquiátrica, por sua vez, trouxe uma nova perspectiva, a qual considera o contexto de vida da pessoa em sofrimento psíquico e reconhece suas necessidades e direitos. Entretanto, apesar da criação da Lei 10.216/2001, que instituiu a Política Nacional de Saúde Mental, ainda existem casos de internações psiquiátricas desnecessárias e abusivas tanto na rede substitutiva como em hospitais psiquiátricos, refletindo a perpetuação do modelo biomédico e manicomial no cotidiano da clínica em saúde mental. As tecnologias utilizadas neste modo estruturam-se a partir de práticas de controle, como comunicações verticais e violentas, hipermedicalização e contenções mecânicas adotadas equivocadamente. Tais práticas, além de representarem manobras de sujeitamento da pessoa em sofrimento psíquico, evidenciam a permanência de uma lógica manicomial que desconsidera a singularidade da pessoa assistida e fragiliza seu processo de autonomia e recuperação. Pretende-se relatar a experiência de acadêmicas de Enfermagem acerca do seu primeiro contato com os usuários com demandas de saúde mental em condição de internação. Os encontros foram oportunizados através de atividades práticas vinculadas ao 5° semestre do componente curricular Gestão do Cuidado II, do curso de Enfermagem da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Foram realizadas em um hospital da fronteira oeste do Rio Grande do Sul, entre os meses de Maio a Junho de 2023, em cinco encontros totalizando 22 horas de atividades de ensino. Compunham o repertório das práticas supervisionadas o acolhimento, escuta qualificada, desenvolvimento de atividades coletivas, como grupos e oficinas terapêuticas, e a realização de procedimentos de enfermagem. Inicialmente, o contato com um ambiente novo exigiu a dedicação das discentes na busca por novos conhecimentos e na compreensão de aspectos subliminares envolvidos nas decisões clínicas da unidade. Isso gerou sentimentos como euforia, entusiasmo, ansiedade, apreensão e preocupação. Também, foram encontrados desafios relacionados ao modelo institucional seguido, visto que, muitas vezes observaram-se condutas pautadas em tecnologias duras, típicas do modelo asilar/manicomial, caracterizadas especialmente pela restrição de liberdade, uso de força física e controle do comportamento dos usuários. Ademais, foi possível observar que o Projeto Terapêutico Singular neste contexto encontra dificuldades de partilha, é pouco dialógico e frágil no que diz respeito à articulação com a Rede de Atenção Psicossocial. Nesse sentido, as opiniões e desejos das pessoas assistidas encontram pouca possibilidade de consideração real, restringindo o exercício da autonomia. Ainda, as relações e as comunicações institucionais hospitalares se dão de forma verticalizada, o que agrava ainda mais esse processo de fragmentação do cuidado. Algumas experiências foram geradoras de desconforto entre as acadêmicas, uma vez que foi possível verificar incompatibilidades entre as diretrizes em saúde mental e procedimentos básicos de enfermagem, perpetuando os paradigmas encontrados no modelo manicomial, como excesso de contenções químicas e mecânicas e poucas ofertas de estratégias de cuidado não farmacológico. Todavia, apesar dos desafios encontrados, ter esse campo prático no processo de ensino na graduação em enfermagem possibilitou implementar aprendizados importantes como: tecnologias leves, escuta ativa, relações dialógicas, vínculo terapêutico e integralidade do cuidado. Notou-se ainda que, os usuários reconheciam essa abordagem e buscavam cotidianamente a companhia e acolhimento das acadêmicas, solicitando algumas vezes verbalmente o desejo de que seus cuidados fossem assumidos por essas. Dessa maneira, embora essa vivência de ensino tenha proporcionado momentos controversos, também possibilitou a compreensão acerca da complexidade da atuação da enfermagem no campo da saúde mental. A realização das aulas práticas na unidade de saúde mental em hospital geral, possibilitou a experimentação da dinâmica relacional e institucional, e viabilizou um olhar mais atento e sensível às necessidades dessas pessoas. Logo, evidenciou a importância da formação dos profissionais de saúde com uma perspectiva humanista e inclusiva ao favorecer experiências deflagradoras de reflexões críticas, afetivas e fundamentadas de um modo de cuidar em saúde mental que visivelmente aguarda avanços urgentes pautados nas boas práticas em saúde mental. Dessa forma, a implementação das tecnologias leves no campo da saúde mental representa um importante passo para formação acadêmica e, também, um salto em direção à superação do modelo asilar, que não se encerra nas paredes dos manicômios, mas está em nós.Downloads
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Publicado
2023-12-18
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
O MANICÔMIO ESTÁ EM NÓS? RELATO DE EXPERIÊNCIA DE ACADÊMICAS DE ENFERMAGEM. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 1, n. 15, 2023. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/116157. Acesso em: 17 abr. 2026.