“O menino não tem essa coisa de ter disciplina”: Ideias sobre masculinidades no cotidiano escolar

  • Misaeli Botelho Lima
  • Lucas da Costa Lage
  • Juliana Brandão Machado
Rótulo Masculinidades, Formação, inicial, Professores, Gênero

Resumo

O trabalho discute alguns aspectos referentes à construção de masculinidades no contexto da escola. Conforme apontado por Connell (1995), a masculinidade diz respeito a práticas que envolvem a posição dos homens no âmbito das relações de gênero. Essas relações são produzidas e atravessadas pelo contexto histórico e também pelos locais de sociabilidade em que as pessoas estão inseridas. Dessa maneira, o texto apresenta a seguinte problemática: quais são as concepções das professoras em formação inicial sobre a produção de masculinidades no ambiente escolar? Justifica-se essa pesquisa pela necessidade de dialogar sobre questões de gênero, principalmente no que se refere às concepções acerca dos comportamentos atribuídos aos sujeitos masculinos. As masculinidades, bem como as feminilidades, são produzidas nas esferas das relações sociais e culturais. Porém, certos modos de ser são naturalizados e vistos como intrínsecos aos sujeitos. Dessa maneira, o texto tem por objetivo principal discutir sobre os pontos de vista das graduandas do curso de Pedagogia no que se refere às produções de masculinidades na instituição escolar. Com relação aos aspectos metodológicos, a abordagem do trabalho teve enfoque qualitativo e foram realizadas entrevistas semi-estruturadas. Foram entrevistadas quatro estudantes do curso de Pedagogia da Unipampa, campus Jaguarão, a fim de mapear as concepções iniciais no que se refere aos aspectos de masculinidades e feminilidades, bem como sobre sexualidades. Para esse texto privilegiou-se o recorte referente às ideias acerca das masculinidades. As quatro graduandas interlocutoras voluntariaram-se através de convites emitidos nos grupos de Whatsapp, para distintos semestres do curso a fim de considerar mais perspectivas sobre a temática. As entrevistas ocorreram através da plataforma Google Meet e foi solicitada a permissão para a gravação, logo, as estudantes serão identificadas como A, B, C e D, a fim de resguardar suas identidades. Através da análise dos dados coletados foi possível perceber que certas ações dos sujeitos considerados masculinos são vistas, de certa forma, como inatas pelas interlocutoras. Isso ficou evidente na seguinte fala: o menino não tem essa coisa de ter disciplina, não têm tipo senta e foca nisso (estudante C). Segundo Dal´Igna e Klein (2015) reconhecem-se algumas maneiras de ser menino como componentes de suas próprias naturezas. A partir disso, atribui-se a falta de disciplina com relação aos estudos estar atrelada a um comportamento masculino. Por isso, é necessária a existência de uma compreensão sobre as questões de gênero de modo a reconhecer que certas ações não são naturais, mas sim, aprendidas e simbolicamente reiteradas nos contextos das interações cotidianas. Segundo Connell (1995), em um contexto social podem existir distintas construções de masculinidades que dialogam entre si através de relações contraditórias situadas em aspectos de dominação e cumplicidade. Com a discussão de Louro (2013) percebe-se que a escola possui o encargo de evidenciar a existência de somente uma maneira considerada adequada e legítima de vivenciar a masculinidade, que está vinculada à naturalização de certas práticas. Eu acho que os guris têm no próprio corpo deles, eles já têm essa força, essa velocidade a mais que a gente[...] (Estudante A). Através dessa fala é possível perceber que atributos como força e velocidade são considerados intrínsecos às personalidades masculinas. O conceito de gênero diz respeito a maneira pela qual diferenças anatômicas presentes nos corpos humanos, tornam-se parte das práticas sociais, delimitando as ações dos sujeitos. Com a discussão de Louro (2013) percebe-se que a escola possui o encargo de evidenciar a existência de somente uma maneira considerada adequada e legítima de vivenciar a masculinidade,. Essas informações, muitas vezes, compõem as ideias das professoras em formação, visto que, conforme Tardif (2011), a socialização escolar também possui aspectos formativos. Dessa maneira, percebe-se que as estudantes interlocutoras da pesquisa possuem algumas ideias limitadas acerca das masculinidades presentes no ambiente escolar. Por isso, é necessário que se tenha contato com as questões de gênero na formação inicial de professores, a fim de que certas concepções possam ser pensadas criticamente. Não existe apenas um modelo de masculinidade ideal que tenha por parâmetro um comportamento não disciplinado ou até mesmo agressivo, essas ideias são formuladas no âmbito das normas sociais, que precisam ser questionadas.

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Publicado
2021-11-16
Como Citar
BOTELHO LIMA, M.; DA COSTA LAGE, L.; BRANDÃO MACHADO, J. “O menino não tem essa coisa de ter disciplina”: Ideias sobre masculinidades no cotidiano escolar. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 13, n. 3, 16 nov. 2021.