O COMPASSO DO NEGRO NA LITERATURA BRASILEIRA: ESCRITORES E ESCRITORAS NEGRAS EM DIÁLOGO
Palavras-chave:
Literatura, Brasileira, autoria, negra, negroResumo
A gênese desse trabalho se deu a partir de discussões empreendidas no projeto de extensão Diálogos Literários, vinculado ao Instituto Federal Farroupilha - campus São Vicente do Sul, o qual visa incentivar os alunos e a comunidade externa a se envolverem no processo de leitura de obras literárias, com enfoque no caráter humanista, cultural, histórico e social da literatura. Em 2021, por meio de discussões realizadas de forma online, destacou-se a produção realizada por escritores negros e negras, o que permitiu refletir sobre a afirmação da artista e escritora Elisa Lucinda: O mundo pede abolicionistas modernos. Entre leituras e conversas acerca das obras selecionadas surgiu a questão da diferença de abordagem a respeito do negro na literatura brasileira, enfatizando a afirmação de Domício Proença Filho (2004) sobre a existência de uma literatura sobre o negro e outra do negro. Em outras palavras, há duas perspectivas no que refere à produção literária: o negro como objeto, em que prevalece uma visão estereotipada; e o negro como sujeito, em que há o comprometimento com a questão racial. Nesse sentido, o trabalho baseia-se nas obras O Alienista de Machado de Assis, Diário do Hospício de Lima Barreto, Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus e Ponciá Vicêncio de Conceição Evaristo. Machado de Assis, o mais conhecido e importante escritor brasileiro, não se comprometeu em trazer de forma explícita as suas experiências particulares de homem negro no conto/novela estudado. Entretanto, ao ironizar a figura do alienista e do seu discurso pretensamente científico, o texto parece apontar para as lacunas na perspectiva dominante na época, a qual buscava comprovar que haveria determinações genéticas e raciais no caso da loucura. Por sua vez, Lima Barreto, em Diário do Hospício, denuncia de forma bastante clara o racismo científico, bem como o preconceito e a falsa democracia racial reinantes no país, por meio da impotência diante do poder do médico. O mordaz escritor carioca logo percebe a discrepância de tratamento entre os pacientes do Hospital de Alienados, o que evidencia a reprodução da desigualdade social e racial brasileira naquele espaço (Devido à pigmentação negra de uma grande parte dos doentes aí recolhidos, a imagem que se fica dele, é que tudo é negro.). Essa posição do autor relaciona-se com o início dos movimentos de conscientização sobre os negros brasileiros e o seu papel na sociedade. Tal realidade discriminatória também foi vivenciada por Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, lançado em 1960. Desde o seu nascimento, ela foi deixada às margens da sociedade por causa de uma ideologia de classe dominante, e conta em seu diário, com detalhes, as dificuldades que enfrentou por ser negra, moradora de favela, mãe solo de três filhos, catadora de papel, além de conviver com a fome e o preconceito. Desse modo, através de seus diários, Carolina e Lima dão forma à discriminação racial e social herdada dos tempos da escravidão. De maneira semelhante, ainda que por meio de uma narrativa ficcional, Conceição Evaristo, em Ponciá Vicêncio, publicado em 2003, dá vida à protagonista Ponciá, jovem negra, cheia de sonhos e desencantos que são retratados de uma maneira profunda pela autora. A obra discute a questão da identidade da personagem centrada na herança identitária do avô, estabelecendo um diálogo entre o passado e o presente marcados pela escravidão. Escrita por uma autora negra, a narrativa faz referência à ancestralidade da protagonista, revelando uma visão comprometida com a condição de mulher negra em uma sociedade marcada pelo preconceito. Dessa forma, se em grande parte da literatura sobre o negro há um histórico de estereotipagem cultural, social e racial, advindo do escravismo, em que ele é visto como um objeto a ser representado de modo inferiorizado; nas narrativas em questão evidenciam-se movimentos de afirmação identitária e de tomada de consciência do negro sobre a sua situação social. Portanto, analisar essas obras é fundamental para refletir acerca da discriminação que ainda é direcionada aos negros, possibilitando que a literatura realize seu papel na constituição de uma consciência histórica, moral e ética. Nesse sentido, é evidente a contribuição do projeto na formação integral dos participantes, pois privilegia a leitura compartilhada a partir da leitura de mundo e da leitura da palavra de cada um. Por fim, considerando que o Diálogos não possui caráter avaliativo e/ou apresenta resultados conclusivos, realizar-se-á como produto final um vídeo cultural, contendo fragmentos representativos das quatro obras discutidas em uma espécie de diálogo entre autores e autoras negras de diferentes tempos e espaços históricos. O objetivo é problematizar os desafios contemporâneos sobre o tema do negro na literatura, na tônica proposta por Angela Davis: Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista.Downloads
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Publicado
2021-11-16
Edição
Seção
Artigos
Como Citar
O COMPASSO DO NEGRO NA LITERATURA BRASILEIRA: ESCRITORES E ESCRITORAS NEGRAS EM DIÁLOGO. Anais do Salão Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão, [S. l.], v. 13, n. 2, 2021. Disponível em: https://periodicos.unipampa.edu.br/index.php/SIEPE/article/view/110530. Acesso em: 30 abr. 2026.