DIÁLOGOS E ESTRANHAMENTOS CULTURAIS NO ENSINO DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA DE ACOLHIMENTO PARA REFUGIADOS SÍRIOS

  • Daniela Moro
  • Clara Zeni Camargo Dornelles
Rótulo Português, como, língua, acolhimento, Estranhamentos, culturais, Refugiados, sírios

Resumo

Um dos principais pontos de discussão dentro da área de Linguística Aplicada, particularmente no que tange a área de línguas, está relacionado à transformação do ensino em um processo culturalmente sensível para alunos e docentes. Para criar um ambiente de acolhimento ao outro, à sua bagagem histórica e às relações que constrói com as demais pessoas, além de valorizar a elaboração de materiais didáticos que buscam orientar modos de agir em sala de aula (MENDES, 2004), os professores precisam contemplar momentos de trocas interculturais dialogicamente constituídas (BAKHTIN, 2003), levando em conta os sujeitos e as esferas de interação. Em relação ao ensino de português para refugiados, as trocas interculturais também devem oportunizar espaço para construções identitárias que, devido ao processo de interação, podem gerar estranhamentos entre os sujeitos envolvidos (TORQUATO, 2014). Desta forma, este trabalho tem como objetivo analisar momentos de estranhamentos culturais que aconteceram nas aulas de português como língua de acolhimento (PLAc), durante o processo de alfabetização e pós-alfabetização de refugiados sírios adultos que vivem em Bagé, Rio Grande do Sul. As aulas foram dadas através do Programa Idiomas sem Fronteiras (IsF) do curso de Letras Línguas Adicionais: Inglês, Espanhol e Respectivas Literaturas da UNIPAMPA, no período de agosto de 2018 a setembro de 2019. Para a geração de dados, analisamos as gravações dos áudios e diários de campo das aulas com o intuito de observar momentos de estranhamentos culturais entre os indivíduos em interação. Durante a análise, observamos que os estranhamentos aconteceram em momentos de diálogo sobre assuntos relacionados ao trabalho no Brasil e na Síria e à instituição familiar, principalmente no que diz respeito à relação de liberdade e hierarquia entre homens e mulheres nesse contexto. A partir dessas análises, percebemos que o processo dialógico instaurou-se, mesmo que temporariamente, como conflito intercultural, uma vez que as visões entre professora e alunos eram divergentes. Concluímos que o ensino da língua portuguesa neste contexto pode ser implementado na medida que, através do diálogo, os sujeitos do processo de ensino e aprendizagem criem oportunidades de refletir sobre a sua cultura e a cultura do outro, e, da mesma forma, de compreender e aceitar formas diferentes perspectivas e considerá-las válidas. Também destacamos a importância de que os docentes percebam seus alunos como sujeitos do conhecimento que participam ativamente de seu próprio processo de aprendizagem, tendo em vista que, no diálogo, o consenso sobre valores culturais nem sempre acontece e não deve ser sobreposto por uma hierarquia entre professor e aluno.

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Publicado
2020-12-04
Como Citar
MORO, D.; ZENI CAMARGO DORNELLES, C. DIÁLOGOS E ESTRANHAMENTOS CULTURAIS NO ENSINO DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA DE ACOLHIMENTO PARA REFUGIADOS SÍRIOS. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 11, n. 3, 4 dez. 2020.