REFLEXÕES ETNOMUSICOLÓGICAS INICIAIS DE UMA RODA DE SAMBA EM BAGÉ/RS

  • Cibele Correa
  • Luana Zambiazzi Dos Santos
Rótulo etnomusicologia, roda, samba, música, popular, resistência, negra

Resumo

O objetivo deste trabalho é apresentar uma reflexão inicial de uma pesquisa etnomusicológica com campo em uma roda de samba, liderada por Tia Iza, uma senhora negra de aproximadamente 70 anos, proprietária e gerenciadora de um bar no espaço urbano de Bagé/RS, que, como tradição, canta à noite todos os domingos com o grupo de samba permanente. Busco aqui apresentar algumas vivências musicais vinculando-as a sentidos sociais e cosmológicos. Metodologicamente, tem feito parte do trabalho descrever em diários as práticas musicais do campo, acompanhando-o em quase todos os domingos. A aproximação considera a minha posicionalidade, já que me coloco como aprendiz musical. Essa posicionalidade se dá por sentir necessidade de compreender as visões de mundo negras ao perceber minha condição de mulher branca na sociedade. Este procedimento tem a ver com a perspectiva etnográfica, que busca descrição densa e, no caso da música, de entender seus sentidos sociais, a partir de um convívio intenso com seus participantes e assumindo o meu compromisso com as questões étnico-raciais. Com o trabalho de campo, já é possível afirmar algumas marcas musicais e reflexões da roda. Neste cenário há instrumentos melódicos-harmônicos, bandolim e guitarra, e instrumentos percussivos, agê, meia-lua, pandeiro, surdo e rebolo. Ao iniciar na roda, aprendi a meia-lua e o agê, para então permanecer no rebolo. Em relação ao rebolo, uma das sobrinhas da Tia Iza afirmou que esse instrumento só foi tocado por três mulheres naquele ambiente, ela mesma, a Tia Iza e eu. Neste momento percebi o quão importante foi a forma como se deu a minha aproximação à roda de samba como parte metodológica da pesquisa, o que inclui tocar o instrumento em uma roda majoritariamente e historicamente masculina. Na roda, em relação ao fato de eu, mulher branca, estar tocando o rebolo, ocorrem diversas manifestações, principalmente de homens externos à roda que se aproximam. Também ocorrem outras tensões no local, seja em relação à mediação da Tia Iza à roda de samba, como também e ao mesmo tempo, do bar. São perceptíveis também as tensões que acontecem na roda entre os integrantes fixos, ao perceberem que o ato de tocar os instrumentos percussivos não está sendo levado a sério. Como um espaço criativo percebe-se que apesar da repetição do repertório há sempre mudanças e movimentações em relação à performance, o que compreende o andamento, duração das músicas, vocalistas, etc. Essa característica aciona questões de resistência negra em que ocorrem micro movimentações e permitem mudanças ao mesmo tempo em que mantém coesão cultural, enfatizada pelo valor da coletividade, em que o mais importante é a música não parar. É possível concluir que às práticas musicais da roda estão associados sentidos sociais/cosmológicos de resistência da cultura negra, envolvendo o valor da coletividade, acolhimento, protagonismo feminino e, ao mesmo tempo, possibilidade de transformação (vinculada à criatividade).

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Publicado
2020-08-28
Como Citar
CORREA, C.; ZAMBIAZZI DOS SANTOS, L. REFLEXÕES ETNOMUSICOLÓGICAS INICIAIS DE UMA RODA DE SAMBA EM BAGÉ/RS. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 11, n. 2, 28 ago. 2020.