A representação dos esquecidos nas crônicas de João do Rio: um cenário em transformação

  • Isabelle Pim
  • Zíla Letícia Goulart Pereira Rêgo
Rótulo João, Rio, “Os, que, começam”, alma, encantadora, das, ruas, Belle, Époque, Janeiro

Resumo

O presente trabalho se inclui no campo dos estudos literários e é parte de uma pesquisa de trabalho de conclusão de curso cujo tema é a representação dos esquecidos nas crônicas do autor João do Rio. A escolha desse tema se deu por uma predileção pessoal que culminou na minha participação em um projeto de pesquisa em 2017, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde vivia. Hoje, dou continuidade à pesquisa no âmbito do Curso de Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa da UNIPAMPA, como trabalho de finalização de curso.Neste texto, trago um recorte dos estudos até aqui desenvolvidos, objetivando analisar o panorama social e cultural da Belle Époque carioca, destacando a existência de pessoas excluídas pelo processo de modernização do Rio de Janeiro, além de estudar a representação desses tipos na crônica Os que começam, de João do Rio, constante da obra A vida encantadora das ruas. A metodologia de pesquisa escolhida para a elaboração deste trabalho foi bibliográfica de análise crítica, com base em um construto teórico bem estabelecido. Meus estudos se amparam nos autores ANTELLO (1989),BARRETO (1991), BARROSO (2012), GRALHA (2018), entre outros, além disso, foram feitas análises críticas de bibliografia de outras áreas tais como história e sociologia.Ao analisar o contexto do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, pode-se dizer que a chamada Belle Époque teve início após a Proclamação da República, em 1889, período a partir do qual a elite brasileira precisou se estabelecer, e escolheu fazer isso mirando em uma sociedade já muito bem instituída, a francesa. A partir dessa vontade de parecer Paris, a então capital federal, Rio de Janeiro, vivenciou a maior reforma urbana realizada através de um plano de transformação do centro carioca.Criou-se então, um projeto de revitalização da cidade com o intuito de civilizá-la para que parecesse o máximo possível com a Europa, reforma essa que ficou conhecida como bota-abaixo. Entretanto, as alterações deixaram às escuras o que não era considerado esteticamente agradável aos olhos do ideal abstrato de civilização moderna. O bota-abaixo tirou pessoas de suas casas, desempregou algumas e inviabilizou outras de continuarem suas atividades urbanas, o que contribuiu para o aumento da desigualdade social, que já não era pequena, tornando-a um abismo moderno. Todos esses contrastes precisavam ser registrados e João do Rio destacou-se dentre os cronistas, não por retratar a vida da alta sociedade carioca, mas por destacar com minuciosa atenção parte da população que havia sido privada do progresso. Em Os que começam João do Rio continua descrevendo tipos excluídos das felicidades modernas, tipos que dela só veem a miséria e a desigualdade. A crônica tem início com uma frase que demonstra a conexão profunda e humana do autor com pessoas com as quais ninguém costumava se importar, João do Rio diz que não há exploração mais dolorosa que a das crianças. No texto, o autor conta um pouco sobre a realidade de algumas crianças que, por razões diversas ali justificadas, acabam tendo que pedir dinheiro nas ruas. Constatamos que o autor conseguiu escrever sem colaborar para o movimento de exclusão dos pobres sujos e feios, muito pelo contrário, dedicou o livro A alma encantadora das ruas quase que exclusivamente para os menos privilegiados. Através da pesquisa percebeu-se que talvez a característica mais marcante de João do Rio tenha sido o seu caráter flâneur, esse diferencial possibilitou que ele percorresse o labirinto da vida moderna passando pelas grandes avenidas até os becos e vielas cariocas. O homem das multidões cariocas teve olhos para ver os invisibilizados pelo progresso e empatia para ouvir, conhecer e retratar a mais pura e simples miséria dos infelizes. Conclui-se, então, que a análise crítica de uma época é fundamental para que se possa aprender e não repetir os mesmos erros. Textos como os de João do Rio, que contam a realidade por trás de uma reforma que pretendia instaurar a modernidade, mas que gerou miséria e fome, são imprescindíveis para que as gerações futuras tenham um panorama das transformações pelas quais passou a sociedade brasileira. A crítica social presente nas crônicas de João do Rio nunca foi tão atual e necessária, é preciso escolher não só ver, mas enxergar o que a rua fala. A miséria grita, mas é necessário empatia para ouvi-la.

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Publicado
2022-11-23
Como Citar
PIM, I.; LETÍCIA GOULART PEREIRA RÊGO, Z. A representação dos esquecidos nas crônicas de João do Rio: um cenário em transformação. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 2, n. 14, 23 nov. 2022.