EDUCAÇÃO DE MULHERES UMBANDISTAS NOS TERREIROS DE BAGÉ(RS): ARTES AFRO-DIASPÓRICAS DE EXISTÊNCIA

  • Hélen de Oliveira Soares Jardim
  • Franceli Brizolla
Rótulo educação, mulheres, umbandistas, diásporas, ancestralidades, negras, religiosidades, afro-brasileiras

Resumo

O tema proposto Educação de mulheres umbandistas nos terreiros de Bagé (RS): artes afro-diaspóricas de existência é um recorte que move a pesquisa em andamento no Mestrado em Ensino na Universidade Federal do Pampa, a partir das narrativas das mulheres participantes da pesquisa e que mostram uma educação baseada na afirmação da fé nos Orixás, no culto de valores ancestrais e crenças transmitidas de geração em geração. Assim, protagonizam resistências afro-diaspóricas aos epistemicídios coloniais, racistas e machistas, inventando para si artes singulares de viver. Nela se expressa o desejo de fazer circular e proliferar saberes, fazeres e sentires experimentados através das religiosidades de matriz africana e afro-brasileiras que preservam valores afros ao inventar modos singulares de manifestar a tradição. A umbanda, assim como outras religiosidades afro-brasileiras, compõe um rico patrimônio cultural afro-diaspórico produzido em resistência ao preconceito e a intolerância religiosa no Brasil e no mundo. Como diz Rufino (2019), marafundas do colonialismo do ser, poder inventadas com a imposição da religiosidade e da fé cristã tornada à verdadeira. É preciso desmontar verdades fantasiosas e combater preconceitos religiosos. Nesse sentido, as metanarrativas eurocêntricas cristãs sustentam o obscurantismo, os preconceitos e a intolerância religiosa. Expressões da colonialidade do saber, do poder e do ser (MALDONADO-TORRES, 2019, p. 42) que deslegitimam outras formas de perceber e viver no mundo, como as religiosidades de matriz africana e afro-brasileiras que seguem sendo interditadas desde a colonização europeia. Entretanto, diferentes modos de ser, pensar, existir e entender as coisas do mundo não deixa de acontecer em tempos passados e presentes. Vidas que se fazem obra de arte (FOUCAULT, 2014). Evidenciar as práticas umbandistas como dispositivos investigativos é possibilitar conhecer, reconhecer e valorizar outras formas de educação de mulheres. É abrir caminhos para questionar verdades naturalizadas historicamente. O movimento do pensamento experimentado com a pesquisa é o de desaprender para conhecer, ou seja, desaprender no sentido de esquecer o que se aprendeu até aqui como uma única forma legítima e possível de educar-nos, indo ao encontro de mulheres umbandistas para aprender com elas sobre a educação que acontece nos terreiros e comunidades afro-brasileiras das quais fazem parte. O que se passa em suas vidas cotidianas? Como se subjetivam? O que pensam, fazem e sentem ao assumir o pertencimento à umbanda? Que modos são esses de existir diferentemente? A pesquisa foi construída a partir de um estudo de caso sobre as experiências vividas pelas mulheres umbandistas nas comunidades e terreiros que frequentam, sendo estas o grupo de sujeitos da pesquisa em tela. A pesquisa se desenvolveu de março de 2021 a setembro de 2022. As narrativas das mulheres umbandistas serviram como material empírico da análise dos modos pelos quais se educam nos seus cotidianos, nas comunidades e terreiros em que praticam sua fé. Portanto, a pesquisa vai ao encontro dos movimentos de tessitura e partilha (FERRAÇO, 2007, p. 79) mobilizado pelo e no cotidiano das ações de mulheres praticantes da Umbanda no lugar do habitado, do praticado, do vivido; constituíram-se, portanto, no principal instrumento de produção de dados neste estudo. Considera-se também que "a narrativa se constitui no ato de contar e de revelar o modo pelo qual os sujeitos concebem e vivenciam o mundo" (SOUSA; CABRAL, 2015, p. 150). Ressalta-se ainda o papel preponderante que a oralidade assume nas sociedades africanas e afro-diaspóricas, enquanto dispositivo de transmissão e preservação cultural, o que as diferenciam das sociedades ocidentais centradas na linguagem escrita, resultado de uma concepção moderna do conhecimento. Nesse sentido, as narrativas também se constituíram como método de análise do trabalho. Ainda de acordo com Certeau (2014), é das práticas cotidianas que se podem extrair maneiras de fazer, muitas vezes, imperceptíveis na vida social e que destoam de outras formas focadas nas práticas corriqueiras e conformistas com uma lógica individualista. Como conclusões do estudo de caso, as falas mostram que nas periferias urbanas da cidade de Bagé (RS), fortemente marcada pelo pensamento eurocêntrico, preconceito machista e racista, as mulheres umbandistas resistem, praticam os cultos afros e mantêm viva a ancestralidade como marca identitária de afirmação das africanidades. Educação de mulheres guiada por artes de existir afro-diaspóricas, onde percebe-se o fortalecimento dos vínculos com as ancestralidades mediante constante relação de afeto entre gerações mais velhas e mais novas, entrelaçadas com as forças extraídas da fé nos Orixás.

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Publicado
2022-11-23
Como Citar
DE OLIVEIRA SOARES JARDIM, H.; BRIZOLLA, F. EDUCAÇÃO DE MULHERES UMBANDISTAS NOS TERREIROS DE BAGÉ(RS): ARTES AFRO-DIASPÓRICAS DE EXISTÊNCIA. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 2, n. 14, 23 nov. 2022.