DEPRESSÃO PÓS-PARTO: PRECISAMOS FALAR SOBRE ISSO

  • Carolina Pereira de Oliveira
  • Bianca Bernardes Muruzzi
  • Lisie Alende Prates
Rótulo Depressão-pós, parto, saúde, mental, puérperas, estigma

Resumo

O puerpério é um período que se inicia após o parto e é caracterizado por amplas transformações psíquicas devido às mudanças anatomofisiológicas e todas as adaptações geradas com a chegada do bebê. Nessa fase, sentimentos de frustração e tristeza associados à falta de suporte familiar e outros aspectos socioeconômicos podem ser potencializadores para o desenvolvimento de quadro de depressão pós-parto. Esse agravo de saúde, assim como outras condições de saúde mental, muitas vezes, estão associadas a estigmas sociais que, neste caso, estão ligados às crenças populares sobre a maternidade e o papel designado às mulheres, culpabilizando-as quando falham em representar eximiamente sua função. Nesse sentido, vale destacar que, historicamente, a saúde mental, no Brasil, é tratada de forma vexatória e constrangedora, deixando marcas sociais difíceis de apagar do senso comum e que são capazes de transpassar gerações, alastrando-se pela sociedade e transparecendo nas raras vezes em que a temática da depressão pós-parto é abordada. A partir disso, o presente trabalho objetiva refletir sobre o estigma acerca da depressão pós-parto. Essa reflexão se dá a partir da realização das coletas de dados do projeto de pesquisa intitulado Depressão pós-parto: prevalência, perfil e rede de apoio de mulheres na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. O projeto tem como objetivo investigar o perfil e mensurar a prevalência da depressão pós-parto em usuárias das 24 Estratégias de Saúde da Família do município de Uruguaiana. Dentre as técnicas utilizadas na coleta de dados, tem-se a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo, a qual permite identificar o grau de depressão pós-parto. Para isso, são desenvolvidas 10 perguntas sobre os sentimentos apresentados pela puérpera nos últimos sete dias. Além da Escala, o projeto prevê a realização de entrevista semiestruturada individual para coleta de dados sociodemográficos, histórico obstétrico, pessoal e familiar, bem como informações sobre a última gestação para identificar o perfil das participantes e a rede de apoio disponível nesse período. Associada à entrevista, também aplica-se a Técnica de Criatividade e Sensibilidade Mapa Falante, na qual solicita-se às participantes que realizem um desenho representativo das pessoas envolvidas em suas redes de apoio e as funções ou tipos de apoio fornecidos à puérpera. A coleta de dados encontra-se em andamento. Contudo, a partir das vivências obtidas até o momento, tem-se refletido que ser mulher, na modernidade, está associado a um conjunto de regras e imposições sobre o corpo e as condutas femininas. Somado a isso, quando a mulher torna-se mãe, além de todas as obrigações historicamente determinadas pela sociedade ao gênero feminino, ela também precisa atender as normas e funções esperadas pela figura materna. Diante disso, no imaginário social, espera-se que a mulher assuma o papel de cuidadora e principal responsável pelas demandas do bebê e da família, deixando as suas necessidades em segundo plano. Contudo, frente a todas as mudanças e adaptações intrínsecas à chegada do bebê no contexto familiar, a mulher pode experienciar sentimentos ambíguos e, em alguns casos, a exacerbação de sensações negativas. Durante as coletas de dados, tem-se percebido que as mulheres não se sentem confortáveis para falar sobre os sentimentos apresentados no puerpério, pois demonstram receio quanto à possibilidade de serem diagnosticadas com depressão pós-parto. Com isso, pondera-se que o padrão sociocultural de normalidade emerge como um fator dificultador, que gera barreiras na comunicação e transforma a depressão pós-parto em um tabu social. À vista disso, normalizou-se um tom pejorativo e ultraje à questão, dificultando o debate do assunto com puérperas e suas famílias devido ao medo de julgamento. Nesse sentido, durante as coletas, observa-se que as participantes apresentam dificuldade em falar sobre assuntos ligados à saúde mental e demonstram negação quanto à presença de sentimentos negativos no puerpério. Logo, constata-se que o estigma social ligado à depressão pós-parto impossibilita que o tema seja abordado de forma natural, impedindo, também, o seu diagnóstico e o acolhimento das mulheres pelos serviços de saúde. Com a finalização do estudo e a sua publicização, espera-se encorajar os profissionais da saúde a refletirem sobre o atendimento às puérperas, de modo que apresentem olhar sensível e escuta ativa frente aos sinais e sintomas apresentados pela mulher nessa fase. Ainda, almeja-se fomentar o estabelecimento de um ambiente seguro, livre de julgamentos e aberto ao diálogo informativo e acolhedor, a fim de desmistificar o debate sobre a saúde mental no puerpério.

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Publicado
2022-11-23
Como Citar
PEREIRA DE OLIVEIRA, C.; BERNARDES MURUZZI, B.; ALENDE PRATES, L. DEPRESSÃO PÓS-PARTO: PRECISAMOS FALAR SOBRE ISSO. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 2, n. 14, 23 nov. 2022.