INSTÂNCIAS ENUNCIATIVAS POSSÍVEIS NO TEATRO VERBATIM

  • Mariana Fernandes
  • Mariana Cavallari Fernandes
  • Jorama de Quadros Stein
Rótulo Teatro, Verbatim, Enunciação, Instâncias, enunciativas

Resumo

O Teatro Verbatim é uma técnica teatral em que falas reais são levadas ao palco através da interpretação dos atores. Essa técnica surgiu na Inglaterra nas décadas finais do século passado e sua prática ainda se concentra fortemente lá, mas, recentemente, ela vem ganhando adeptos em diversos lugares do mundo, inclusive no Brasil. Assim como a atividade do Teatro Verbatim, a produção acadêmica a seu respeito também advém principalmente da Inglaterra, havendo uma escassez de trabalhos em língua portuguesa a seu respeito. O presente trabalho se propõe a apresentar a organização enunciativa do Teatro Verbatim a partir da noção de instância enunciativa (eu-tu-ele-aqui-agora) proposta por Émile Benveniste (2005). Para tanto, as diferentes condições de diálogos possíveis nos atos/processos de criação de peças de Teatro Verbatim são levadas em conta para a apresentação de suas instâncias enunciativas, as quais são derivadas do referencial teórico sobre o Teatro Verbatim baseado no artigo Verbatim Theatre: Oral History and Documentary Techniques (1987), de Derek Paget, e também de uma série de entrevistas com diretores de Teatro Verbatim disponíveis no canal do Youtube do National Theatre de Londres, Inglaterra, além do relato de uma das autoras (praticante do Teatro Verbatim). Tais materiais nos levam a considerar como instâncias enunciativas relativamente estáveis do Teatro Verbatim: coleta de material (aqui representada pela coleta de narrativas reais por meio de entrevista); transcrição do material coletado; edição do material coletado para roteirização da peça; montagem da peça e suas encenações. Essas instâncias enunciativas estruturantes do Teatro Verbatim foram propostas levando em consideração o eu que enuncia para um tu, a propósito de um ele. Consideramos, então, que a primeira instância enunciativa possível é a entrevista, em que um eu-entrevistador enuncia para um tu-entrevistado e, então, um eu-entrevistado enuncia para um tu-entrevistador. A enunciação desse eu-entrevistado será o principal material para a elaboração do texto da peça de Teatro Verbatim. Já a segunda instância enunciativa possível é a da transcrição, em que um eu-transcritor enuncia para um tu-leitor/editor. Tu-leitor/editor porque, ao transcrever um trecho do relato coletado ou escolhido, o eu-transcritor transcreve para que as pessoas envolvidas no processo criativo da peça leiam e, então, incorporem o relato transcrito na peça, através de um processo de edição. Por sua vez, a terceira instância enunciativa previsível é a da edição, nela, temos um eu-editor que enuncia para um tu-leitor/editor/ator, ao selecionar o recorte das falas Verbatim que irão para o texto teatral. Na etapa da montagem da peça, o eu-criador enuncia para um tu-público. Esse eu é toda e qualquer pessoa envolvida nesse processo criativo de montagem, que é a própria enunciação. Finalizada a montagem, ocorre a encenação da peça, que, cada vez encenada, constitui uma nova enunciação. A cada encenação, o eu-ator enuncia para o tu-público. Por trás dela, há diversos eu-enunciadores constituídos no eu-ator. Mas aqui o tu é apenas o público. E, a cada apresentação da peça, há um público diferente. Questionamo-nos: o que muda na enunciação da entrevista para a enunciação da interpretação? Entendemos que a mudança essencial é o tu, pois a recepção é o que configura essa nova enunciação. Portanto, há uma nova enunciação devido ao novo tu, que é parte essencial da enunciação, uma vez que condiciona um novo propósito enunciativo. Nesse sentido, o tu é ainda mais relevante que o eu. Isso porque a referência constituída internamente se dá pela troca entre eu-tu no aqui-agora a propósito de um ele. Ela é, portanto, co-construída, parte integrante da enunciação e permite aos interlocutores (co)referirem pelo discurso. Os resultados apontam para diversas enunciações em relação no ato/processo de criação de peças do Teatro Verbatim. Cada encenação de uma peça é considerada uma instância enunciativa por si só, mas é construída por todas as instâncias enunciativas anteriores, o que faz com que o Teatro Verbatim coloque em evidência a singularidade e a irrepetibilidade de cada ato enunciativo.

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Publicado
2021-11-16
Como Citar
FERNANDES, M.; CAVALLARI FERNANDES, M.; DE QUADROS STEIN, J. INSTÂNCIAS ENUNCIATIVAS POSSÍVEIS NO TEATRO VERBATIM. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 13, n. 3, 16 nov. 2021.