CONCORDÂNCIA NOMINAL EM TEXTOS DE ALUNOS DE EDUCAÇÃO BÁSICA

  • Cinara Vargas
  • Adriana Floor Botelho
  • Letícia Nunes Maciel
  • Claudinei Moncks Fernandes
  • Hugo Ricardo Lengert
  • Leonor Simioni
Rótulo Ensino, Gramática, Educação, Básica, Concordância, Nominal

Resumo

Esta pesquisa trata da manifestação da concordância nominal (doravante, CN) na produção textual de estudantes da Educação Básica. A CN no português brasileiro tem sido largamente investigada por se tratar de um fenômeno gramatical variável que é alvo de preconceito linguístico em nossa sociedade. Ao mesmo tempo, os estudos sobre a CN na língua falada adulta evidenciam que nenhum falante, independente de escolaridade, idade, gênero, região de origem e registro, emprega a concordância padrão de forma categórica (SCHERRE, 1988; BRANDÃO, 2008; BAGNO, 2012). A literatura aponta que a marcação de número no interior do sintagma nominal (SN) responde a regras bastante sofisticadas e é condicionada por fatores linguísticos, sendo o principal a categoria gramatical em relação à posição pré ou pós-nuclear, com tendência de marcação de plural à esquerda do núcleo; do mesmo modo, a realização da CN em estruturas passivas e predicativas obedece a critérios posicionais, com elementos mais à esquerda recebendo mais marcas e com a ordem verbo-sujeito desfavorecendo a manifestação da CN padrão. Além dos fatores linguísticos, a CN é influenciada por fatores extralinguísticos, como gênero do falante e escolaridade, de modo que mulheres e indivíduos com maior escolaridade tendem a produzir mais taxas de concordância padrão. Os mesmos condicionantes linguísticos, sociais e estilísticos se manifestam na fala infantil, mesmo em fases pré-alfabetização (SIMÕES; SOARES, 2015). Resultados de análises de redações produzidas por alunos de 6º e 7º ano do Ensino Fundamental corroboram a influência dos fatores extralinguísticos gênero e localização da escola em zona urbana no maior emprego da CN padrão (ARAÚJO; SILVA, 2015). Nesse contexto, e considerando a inegável influência da escolarização na manifestação da CN, o estudo pretende investigar a influência do ensino da gramática no emprego da CN em textos escritos por estudantes em etapas finais do Ensino Médio. Partindo da premissa de que todo ser humano, de forma inata, está apto para articular a linguagem de acordo com estruturas gramaticais, a pesquisa objetiva verificar o emprego da CN variável na escrita dos discentes, averiguando se a variação na CN na fala reflete-se na língua escrita, ou seja, se esta é condicionada pelos mesmos fatores linguísticos e extralinguísticos anteriormente descritos. Mais especificamente, investiga-se a influência do fator linguístico categoria gramatical em relação à posição do elemento e do fator extralinguístico gênero do informante, atentando também para possíveis diferenças de comportamento condicionadas pela escola de origem dos informantes. A metodologia consiste na análise de um corpus constituído de 96 textos produzidos por estudantes do terceiro ano do Ensino Médio de quatro escolas da Grande Florianópolis, pertencente ao banco de dados do projeto VARSUL . Num primeiro momento, foi realizado um levantamento dos dados em que não houve emprego da CN padrão, seguindo os seguintes critérios: escola, gênero, sintagmas nominais, passivas e predicativas, correferência. Foram encontradas 34 ocorrências. Em relação aos dados de SNs, percebeu-se que vão ao encontro de pesquisas anteriores (BRANDÃO, 2008) e mostram SNs cuja flexão de número ocorre apenas à esquerda do núcleo, como no exemplo: [...] grandes surfista [...]; quando o núcleo do SN aparece com marcação de plural, se posiciona à esquerda do próximo termo sem flexão de número: [...] rodovias brasileira [...]. O mesmo ocorre em relação aos dados de predicativas e passivas: "[...] um número alto de mulheres é humilhada [...]", especialmente na ordem verbo-sujeito: "[...] poderia ser feito palestras [...]". Por outro lado, surgiram ocorrências que não seguem as regras variáveis observadas na fala, tanto no interior do SN: [...] a vidas das mulheres [...] quanto nas passivas e predicativas: "[...] Florianópolis recebeu o consórcio fenix que vem sendo investigada []". Essas ocorrências divergem dos resultados de pesquisas anteriores (BRANDÃO, 2008) e requerem análise mais detalhada para o levantamento de possíveis razões para a ocorrência desses desvios. Em relação aos fatores extralinguísticos, observou-se que apenas 15 das 40 redações femininas analisadas apresentaram dados de CN não padrão, contra 12 das 28 redações masculinas, corroborando os achados de outros pesquisadores quanto à influência da variável gênero (BRANDÃO, 2008; SIMÕES; SOARES, 2015). Também verificou-se uma influência da escola, com discentes da escola mais periférica apresentando mais ocorrências de CN não padrão em relação às escolas mais centrais. Os resultados parciais permitem concluir que há um efeito da escolarização, uma vez que o número total de ocorrências é pequeno frente ao quantitativo de textos analisado, e que os condicionantes linguísticos e extralinguísticos da regra variável de CN na fala operam também sobre a escrita, confirmando as hipóteses iniciais.

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Publicado
2021-11-16
Como Citar
VARGAS, C.; FLOOR BOTELHO, A.; NUNES MACIEL, L.; MONCKS FERNANDES, C.; RICARDO LENGERT, H.; SIMIONI, L. CONCORDÂNCIA NOMINAL EM TEXTOS DE ALUNOS DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 13, n. 3, 16 nov. 2021.