HERMENÊUTICA DO ENTENDIMENTO E DA SUSPEITA - UMA ABORDAGEM FILOSÓFICA PARA O LETRAMENTO

  • Juliana Hobuss Franz
  • Ana Lúcia Montano Boessio
Rótulo Filosofia, Estética, Teoria, Literária, Hermenêutica, Letramento, Literário, Formação, Docente

Resumo

Se há um campo de estudo cuja função tem sido motivo de críticas a ponto de ser questionada a sua própria existência e utilidade, é o campo da teoria literária. No entanto, quando se pensa formação docente e os desafios que já estão postos para promover letramento discente, é preciso considerar o papel desse campo de estudo. A partir de uma abordagem filosófica, sistêmica, o mesmo capacita o sujeito para a prática interpretativa através da construção de um pensamento complexo e, consequentemente, para compreender a si mesmo e a própria existência como uma questão hermenêutica. Portanto, este trabalho de pesquisa tem por objetivo problematizar as questões da interpretação e a relevância de uma abordagem hermenêutica fenomenológica nos processos e práticas de letramento para a formação docente em Letras. Isto porque pensar o trabalho com literatura a partir dessa abordagem implica necessariamente pensar as questões da interpretação e, portanto, mergulhar no campo da hermenêutica que, segundo M. Heidegger (2006), deve assumir uma função fenomenológica, destruidora, uma hermenêutica que entende a existência como um ser hermenêutico. É também nesses termos que se pensa aqui o conceito de letramento literário, o qual proporciona ao sujeito fazer da leitura uma experiência estética e interpretativa do mundo. Essa abordagem se inicia com Schleiermacher (apud GRONDIN, 2012), no final do século XIX, com a concepção de hermenêutica como uma forma de filosofia universal do entendimento. Essa concepção abre caminho para uma regra com extensão infinita, a qual lança luz sobre a complexidade da experiência de leitura literária e suas práticas interpretativas. Entender passa, então, a significar "reconstruir a gênese de, a partir da ideia de que tudo o que se deve pressupor em hermenêutica é a linguagem e o compromisso com o objetivo de entender. É também com base na experiência da arte que H.-G. Gadamer, em Verdade e Método II (2012), inspira-se para buscar um novo modelo de saber, no qual vincula o jogo da linguagem com o jogo da arte. Segundo o filósofo, a obra de arte não propicia apenas uma fruição estética, ela possui sua própria verdade, oferece um encontro com a verdade. Para pensar esse encontro, Gadamer se vale de um conceito fundamental da estética da recepção, a noção de jogo (ISER,1979): para que possamos entender uma obra de arte, é preciso se deixar levar pelo seu jogo. Nele, não temos controle sobre a obra, é ela quem comanda, nos conduz e nos encanta, levando-nos a participar de uma verdade superior que nos transforma, uma vez que traz consigo um acréscimo de realidade ainda mais poderosa e reveladora que a própria realidade representada pela obra. Como afirma Gadamer, este é o motivo pelo qual existem tantas interpretações diferentes de uma única obra de arte. Então, torna-se necessária uma revisão constante, uma prática hermenêutica da suspeita uma característica do esforço de interpretar, evitando arbitrariedades e preconceitos. Assim, através de uma metodologia de pesquisa bibliográfica, com foco no pensamento hermenêutico de M. Heidegger (2006), H.-G. Gadamer (2012), P. Ricoeur (2019) e J. Grondin (2012), e com base em pesquisas anteriores sobre metodologia ativa e ensinagem de leitura literária, este trabalho se constrói também em diálogo com o Círculo Hermenêutico, uma das ações desenvolvidas no projeto de extensão intitulado LALLI CULTURAL DIÁLOGOS TRANSDISCIPLINARES, e com as disciplinas de Teoria Literária l e ll, articulando o tripé pesquisa-ensino-extensão. Como resultado final, esta pesquisa pretende evidenciar a relevância do papel dos estudos de teoria literária no currículo de Letras, como instrumento formador de sujeitos efetivamente letrados, capazes de interpretar textos, a si mesmos e o mundo, impactando, desse modo, na formação de um professor apto para uma maior apropriação crítico-discursiva tanto no âmbito oral quanto escrito. No fio condutor das vozes aqui citadas, fica evidenciada a relação direta dos estudos filosóficos com o desenvolvimento da competência leitora do sujeito a partir de si mesmo, em conformidade com o princípio socrático do cuida de ti mesmo através do conhecimento de ti mesmo (FOUCAULT, 2011). O contexto atual clama pela retomada de uma formação filosófica humanista que resgate os caminhos do entendimento, da suspeição de todo pré-juízo, de todo pré-conceito em todas as dimensões da vida, sobretudo no âmbito da educação, enfatizando seu papel (trans)formador do discente de Letras, a quem caberá a tarefa de promover letramento através da literatura e seu diálogo com outros campos. Pensar literatura, no seu estatuto de objeto de arte, pressupõe sempre acionar estratégias dialógicas, interpretativas do texto e do contexto no qual o sujeito-leitor está inserido, ou seja, uma prática hermenêutica do entendimento como abertura de mundo.

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Publicado
2021-11-16
Como Citar
HOBUSS FRANZ, J.; LÚCIA MONTANO BOESSIO, A. HERMENÊUTICA DO ENTENDIMENTO E DA SUSPEITA - UMA ABORDAGEM FILOSÓFICA PARA O LETRAMENTO. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 13, n. 3, 16 nov. 2021.