O DISCURSO NAS RELAÇÕES DE TRABALHO NA ÉPOCA DAS GRANDES EMPRESAS DE SANT'ANA DO LIVRAMENTO

  • Danieli Marques Martins
  • Igor Baptista de Oliveira Medeiros
Rótulo História, trabalho, Relações, Condições, Subjetividade, trabalhador

Resumo

O presente trabalho buscou investigar o discurso em torno das relações de trabalho na época das grandes empresas de SantAna do Livramento. O interesse e a escolha pelo tema se devem ao fato da importância delas para a história e desenvolvimento econômico da cidade, concentrando o estudo em três grandes empresas da história santanense: Frigorífico Armour, Lanifício Albornoz e Rede Pegue e Pague. De forma específica, buscamos analisar as condições de trabalho na época; os relacionamentos entre superior e trabalhador e a prestação de contas dos encargos sociais trabalhistas. O método escolhido foi a genealogia, relacionando as obras de Michel Foucault com o discurso das relações de trabalho na época, a partir da análise enunciativa. Para tanto, além da pesquisa documental que contou com consulta de trabalhos anteriores, processos trabalhistas e laudo pericial, foram realizadas entrevistas com 18 ex- trabalhadores destas empresas. Considerando que as idades dos entrevistados variavam entre 50 e 91 anos, sendo a maioria do sexo masculino e pertencentes ao grupo de risco da COVID-19, optamos pela realização da maioria das entrevistas de forma remota, poucas foram presenciais seguindo os protocolos de segurança. Com o auxílio da tecnologia, optamos pela utilização das plataformas Google Meet e WhatsApp para ouvi-los. Descobrimos então, que a maioria deles eram naturais e residentes de Livramento, mas contando com a participação de alguns uruguaios. O nível de escolaridade de grande parte deles foi considerado variado, aliás, foi alterado com a chegada destas empresas, que proporcionava cursos de aprimoramento profissional. Sobre o relacionamento entre superiores e empregados, cabe salientar que estes estabelecimentos trouxeram um novo modelo de administração e normatização baseado no Taylorismo e Fordismo. Isso refletiu na subdivisão do poder e chefias, tudo para esclarecer quem tinha o mando e quem deveria obedecer. Uma das expressões mais utilizadas durante as entrevistas foi a de gestão de quartel. A comparação vem do fato de as empresas optarem pelas regras, pela pouca comunicação com os empregados e pela rigidez no trato, impulsionando o que identificamos como enunciado do mandonismo, pautado no autoritarismo e na hierarquia, além do enunciado da disciplina. O disciplinamento pode ser constatado na existência de uma barbearia para manter a barba e o cabelo cortados, no uso de uniforme, na entrada e intervalos em horários pontuais. As condições de vida apresentadas, antes do ingresso de cada um nas empresas eram na maioria das vezes problemáticas. Muitos buscavam um futuro melhor, com um emprego que naquela época poderia ser considerado estável. Muitos deles tiveram trabalho com carteira assinada somente naquelas empresas. A exaltação das facilidades proporcionadas pelo pleno emprego vivenciado se reverbera em: conquista da vaga sem necessidade de um processo seletivo como é feito nos dias atuais; contratos temporários changa; e o pagamento que ocorria de forma quinzenal com direito a adiantamentos sempre que necessário. Isso levava os trabalhadores locais ao entendimento de aquela seria a melhor realidade possível, atuando de forma conformada. Embora a maioria ainda caracterize o período nostalgicamente como maravilhoso, foi possível identificar algumas inconsistências entre o que foi falado e o que realmente acontecia. A análise documental revelou problemas relacionados ao não pagamento de horas extras e adicionais, erro de cálculo nos pedidos de concessão de aposentadoria, atraso de salários, e também caso de assédio. As horas extras gerando maior exposição a baixas temperaturas trouxeram problemas de saúde para alguns, como a tuberculose. Em função disso, nos anos iniciais houve mobilização sindical da classe trabalhadora que foi continuamente reprimida até culminar na chacina dos 4As, tornando década a década os trabalhadores cada vez menos politizados. Assim, os resultados revelam que o discurso em torno das relações de trabalho estava pautado no mandonismo, na hierarquização e no disciplinamento. A lembrança da facilidade em ter trabalho estável na época acabou por engendrar discursivamente ao longo do tempo o enunciado da nostalgia, da despolitização e do conformismo nos trabalhadores, pois enquanto pudessem manter a família, não havia motivos para contestar, conformando-se com o pouco que recebiam, pois lhes era dado, ao menos, a garantia de seguridade social que hoje não possuem mais.

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Publicado
2021-11-16
Como Citar
MARQUES MARTINS, D.; BAPTISTA DE OLIVEIRA MEDEIROS, I. O DISCURSO NAS RELAÇÕES DE TRABALHO NA ÉPOCA DAS GRANDES EMPRESAS DE SANT’ANA DO LIVRAMENTO. Anais do Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 13, n. 3, 16 nov. 2021.